quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Asperger e bullying: associação perigosa


Para além de défices ao nível das competências sociais, estas criançastêm também dificuldades ao nível da comunicação, pois apesar de muitasvezes falarem de forma pomposa e fluente parecem ausentes do diálogo.


"Para elas, o mundo é estranho e desconcertante: as pessoas não dizemaquilo que pensam, dizem aquilo que não pensam, fazem comentáriostriviais e sem significado, aborrecem-se e perdem a paciência quandouma pessoa com síndrome de Asperger lhes refere centenas de factosfascinantes sobre horários, as inúmeras variedades de cenouras ou omovimento dos planetas. Também não entendem como é que as pessoasconseguem tolerar tantas luzes, sons, cheiros, texturas, paladares,sem se desnortearem, se preocupam tanto com a hierarquia social, têmrelações emocionais tão complicadas, conseguem utilizar e interpretartantas convenções sociais, são tão ilógicos."


Esta é a forma como Lorna Wing, a psiquiatra que usou pela primeiravez o termo síndrome de Asperger, caracteriza as pessoas com estasíndrome. Quem contacta diariamente com crianças com Aspergerconsidera que esta psiquiatra faz, de uma forma sintética, uma boacaracterização deste tipo de problemática. Apesar de, cognitivamente,apresentarem capacidades médias ou acima da média, ao nível dascompetências sociais os portadores de Asperger apresentam défices quelhes limitam seriamente a capacidade de interagir socialmente de umaforma gratificante. Para além de terem dificuldade em estabelecerdiálogo, têm tendência para fazer comentários inoportunos, "demasiadohonestos", que muitas vezes magoam os outros. A dificuldade emperceber sinais não verbais e expressões faciais que exprimemsentimentos é outra característica que os define e que dificulta oestabelecimento de relações sociais satisfatórias.


Para além de défices ao nível das competências sociais, estas criançastêm também dificuldades ao nível da comunicação, pois apesar de muitasvezes falarem de forma pomposa e fluente parecem ausentes do diálogo.A dificuldade em extrair o significado de metáforas e entoações levaas pessoas com quem interagem a questionarem as suas capacidadescognitivas. O facto de habitualmente apresentarem interessesobsessivos também não facilita a comunicação, uma vez que os outrosficam rapidamente cansados de ouvir constantemente falar em carros,comboios, planetas e outros temas pelos quais habitualmente seinteressam.


As dificuldades referidas levam a que estas crianças frequentemente seisolem ou sejam vítimas de abuso, nomeadamente bullying. Estes riscosexigem que sejam alvo de um acompanhamento muito próximo.


Ao abordar este tema, vêm-me imediatamente à memória os muitos casosde meninos com Asperger que vou acompanhando no SPO. O Jorge, porexemplo, que agora é aluno do 8.º ano de escolaridade, é acompanhadodesde o 5.º ano. Ao longo destes anos tem havido uma articulaçãoconstante entre o director de turma, os professores do conselho deturma e os pais do aluno em questão, pois é alvo constante de agressãopor parte dos colegas, alguns deles colegas novos que entram para aturma no início de cada ano lectivo. Sem intervenção e vigilânciapermanentes, o Jorge estaria certamente perdido neste mundo tãocomplexo, cheio de segundos sentidos e subtilezas.


O contacto com estas crianças, com quem habitualmente estabeleço umaexcelente relação, leva-me a concordar plenamente com a opinião deTony Attwood, psicólogo clínico especialista mundial em síndrome deAsperger, relativamente às capacidades e talentos dos portadores destasíndrome. A capacidade para estabelecerem relações de grande lealdade,o discurso isento de falsidades, a conversação objectiva e semmanipulação, a perspectiva original de resolução de problemas e aclareza de valores fazem deles pessoas muito especiais. Como diriaeste especialista, "Precisamos de pessoas com Asperger, uma vez quesão mais criativos do que a população em geral. A cura para o cancroserá provavelmente descoberta por alguém com Asperger!".


Bibliografia: Atwood, T. (1998), A Síndrome de Asperger: Um Guia para Pais eProfissionais, Editorial Verbo, Lisboa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FIO CRUZ DESENVOLVE NOVO EXAME


O Brasil está desenvolvendo um exame laboratorial inédito para o diagnóstico do autismo, uma alteração caracterizada por isolar seu portador do mundo ao redor. O método promete ser uma alternativa mais confiável aos testes de laboratório hoje usados para identificar a doença. "Ainda estamos em fase de estudos, mas os resultados são promissores", diz o pesquisador responsável, Vladmir Lazarev, do Instituto Fernandes Figueira, centro de pesquisas ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro. "Testamos o método em 16 autistas jovens e obtivemos dados homogêneos, muito significativos estatisticamente. Agora, queremos fazer novos testes. A previsão é de que o exame esteja pronto em até cinco anos."

De acordo com Lazarev, cientista russo radicado no Brasil há 15 anos, a vantagem do novo método está no uso da foto-estimulação rítmica. O recurso torna o exame mais completo que outros. Em linguagem comum: durante o já usual encefalograma (radiografia), projeta-se sobre o paciente uma luz que pisca de forma ritmada, estimulando o cérebro a acompanhar. Como o autismo é uma doença do cérebro, a reação deste ao estímulo luminoso pode indicar se ele se enquadra ou não no campo da doença.

Os 16 autistas examinados durante a pesquisa, por exemplo, apresentaram deficiência no lado direito do cérebro. Nesta parte, que é responsável pelas habilidades sócioafetivas da pessoa - confira aqui quadro sobre o cérebro -, a mente dos pacientes seguia o ritmo da luz, mas de maneira mais tímida. "Com isso, podemos concluir que há uma deficiência funcional no hemisfério cerebral direito do autista", explica Lazarev.

Exames de imagem como a encefalografia (radiografia do cérebro feita após a retirada de um fluido do local) ou o próprio encefalograma, se empregados sozinhos, deixam o paciente em estado de repouso. Nessa situação, não se nota nenhuma alteração na atividade elétrica do cérebro. Os resultados, portanto, nem sempre são satisfatórios.


Diagnóstico complexo - Os métodos laboratoriais, chamados de métodos de tipo objetivo, complementam o diagnóstico do autismo feito clinicamente, quando o paciente, em geral uma criança, é avaliado por médicos de diferentes especializações: pediatra, neurologista e fonoaudiólogo, além de um psicólogo. Ou seja, isoladamente, o parecer deve sempre ser associado aos exames de laboratório. "A dificuldade em diagnosticar clinicamente o autismo se deve ao fato de a doença, um mal neuropsiquiátrico funcional, ter aspectos parecidos com os de outras enfermidades", explica Lazarev. Daí a importância de um diagnóstico objetivo cada vez mais confiável.

A grande maioria dos doentes - entre 60% e 70% - tem comprometimento da linguagem, em níveis variáveis. O restante - de 30% a 40% - tem linguagem e inteligência normais e, tecnicamente, são chamados de autistas de alto desempenho. Embora sejam iguais aos demais na dificuldade de compreender o contexto em que se encontram, emitem menos sinais da doença, que pode demorar a ser identificada e tratada. Isso é um fator de risco.

Entenda melhor a doença - Segundo Adailton Pontes, parceiro de Lazarev na pesquisa, o autismo é considerado hoje não apenas uma doença, mas uma série de distúrbios de desenvolvimento capazes de comprometer a interação social, a comunicação social e as habilidades imaginativas. "O autismo não é uma coisa única, há várias formas de autismos que variam no grau de comprometimento das funções - mais leve, moderado, mais grave e com níveis diferentes de inteligência", diz o pesquisador.

A base da doença é genética. O papel do ambiente - das influências externas recebidas pelo autista - ainda é desconhecido. "O que se sabe é que a pessoa nasce com predisposição para o autismo e, já a partir dos dois anos pode apresentar os primeiros sinais da doença, como a ausência de linguagem e a dificuldade de brincar", conta Pontes. "O ideal é diagnosticar a doença até os três anos. Está provado que, quando se faz a intervenção precoce, o prognóstico é melhor. Eles não vão se curar, mas vão se desenvolver mais, vão superar algumas dificuldades que os outros podem não superar porque não foram estimulados."

O autismo não tem cura, mas o portador da doença pode tomar remédios contra sintomas específicos, como a agressividade.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

softwares para autistas

A cabana do Papim Site português de um casal que desenvolve softwares para crianças com dificuldades de aprendizado. Tem o pocket voice, para crianças com limitação verbal. Dica do Eduardo Ribeiro. http://www.papim.com/

Autism Spectrum Products Catalog Catálogo de produtos educativos para autistas, incluindo softwares. http://autismcoach.com/

Autism software Softwares produzidos pelos estudantes da Leeds Metropolitan University da Inglaterra. http://www.lmu.ac.uk/ies/comp/staff/dmoore/anc.htm

HOLOS - Sistema Educacional Desenvolvido pela APAe de Bauru-SP, em parceria com o Ministério da Justiça. Software gratuito para download. http://www.bauru.apaesaopaulo.org.br/?mod=noticias&id=7228

Hetland Multimedia PIX IT é um software para imprimir seus próprios cartões de comunicação alternativa, a partir de suas próprias fotos. Criado por Rachel Hetland, terapeuta comportamental em ABA. http://www.hetlandmultimedia.com/

Hiyah.net - Learning software for children Sara tem um filho autista e outro com TDAH. Ela cria softwares para ajudar-lhes no aprendizado. http://www.hiyah.net/

Learning for Children Programas de computador que poderiam identificar traços de autismo http://www.learningforchildrenllc.com/

NVDA - Non Visual Desktop Access (Acesso ao desktop para deficientes visuais) Leitor de tela livre e de fonte aberta para Windows. http://www.nvaccess.org/nvda/

The Discrete Trial Trainer - Accelerations Educational Software A Accelerations Educational Software faz programas voltados para pessoas autistas e com outros problemas de aprendizagem. http://www.dttrainer.com/

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

aceitação inconformista


Eu aceito, mas não me conformo. Aceito minha vida, com as perdas e com as dificuldades; mas não me conformo com elas, busco compensações. Eu aceito a vida, mas quero algo melhor. Quero viver em um mundo melhor, quero ser uma pessoa melhor também. Eu aceito tudo, inclusive eu sofrendo neste universo, mas não posso me resignar com essa aceitação. Sou um corpo em que habita um demônio, um anjo e um cara que vive negociando com os outros dois. O anjo sempre quer que eu aceite tudo e o demônio é um eterno inconformado. E eu (o dos três dentro de mim que responde por meu nome) passo a vida negociando com a aceitação absoluta e o relativismo inconformista.

Sou humilde, mas não sou modesto. A aceitação me ensina a humildade, o inconformismo me faz audaz. Humildade é a consciência de minha insignificância e a audácia, a percepção de minha singularidade. E quando a falta de modéstia não gera falso reconhecimento e vaidade, ela produz infâmia. Sou humilde, simples húmus da terra, mas sou diferente. “Somos especiais, não somos iguais uns aos outros” – diz sempre o demônio para mim. “Aceitar as diferenças nos iguala como irmãos” – revida o anjo.

Eu obedeço, mas não comando – não desejo responsabilidades. Os ensinamentos esotéricos dizem que os anjos têm três corpos e os demônios têm quatro. Apenas os homens - imagem e semelhança do Divino - têm sete corpos: três janelas acima para obedecer aos anjos e quatro portas abaixo para comandar os demônios.

Eu confio, mas não acredito. Confio nas pessoas, mas não acredito em suas idéias. Tenho fé nos seres vivos e sou cético em relação ao inorgânico. As crenças formam um sistema de domesticação dos sonhos. A confiança é a intimidade dos desejos repartidos. Confio no anjo e no demônio, são meus amigos; mas não acredito neles, não sou cúmplice de seus sentimentos e desconfio dos seus pensamentos.

Eu perdôo, mas não esqueço. Porque com o esquecimento, tudo acontece novamente. A memória do fato é um aprendizado da consciência, é para ser lembrado, não como mágoa, ressentimento ou rancor, mas como um ensinamento ético. Eu perdôo para ser perdoado e não me esqueço para não ser esquecido.

E, no desterro das lembranças, mandarei o demônio para o inferno e o anjo para céu, entregarei minha memória em um altar, confessando que fui feliz; libertando-me deste emprego humano, karma de ser aprendiz e professor espiritual das criaturas.

sábado, 19 de setembro de 2009

minha sindrome de asperger


A SÍNDROME DO DOUTOR SPOCK

Cláudio Ferreira da Costa[1]

Todos conhecem o doutor Spock, personagem da série Jornada nas Estrelas. Ele é um ser meio alienígena e meio humano, com dificuldade para harmonizar o seu eu vulcaniano, lógico, com o seu eu emocional, humano. Algo semelhante ocorre com as pessoas que têm síndrome de Asperger[2], uma curiosa e complexa disfunção neurológica identificada pela primeira vez pelo pediatra vienense Hans Asperger, em 1944. Ele descreveu casos do que chamou de “psicopatia autística”: crianças que não se relacionavam com as outras e que tinham poucos e obsessivos interesses, sendo capazes de dircursar exaustivamente sobre eles, freqüentemente sem domínio adequado, como se fossem “pequenos professores”.
Embora não haja acordo quanto às estimativas, a síndrome de Asperger ou SA é relativamente incomum. Segundo algumas estatísticas ela ocorre em menos de 0,2% das pessoas, sendo quatro vezes mais freqüente no sexo masculino (o autismo comum ocorre em cerca de 0,7% das pessoas). Ela só se tornou conhecida fora dos países de língua alemã quando foi denominada “síndrome de Asperger” em 1981 por Lorna Wing, tendo sido oficializada com a publicação da CID-10 e do DSM-IV em 1994.
Hoje geralmente se admite que a SA seja uma interessante forma limítrofe de autismo, uma condição neurológica que parece indistinguível do que tem sido chamado de autismo de alta funcionalidade. Ela se diferencia do autismo típico, de baixa funcionalidade, porque no último o desenvolvimento da linguagem e da inteligência se encontram profundamente comprometidos. Já a linguagem da pessoa com SA permanece suficientemente preservada, sendo a inteligência normal ou acima do normal.
No que se segue serão descritos os sinais e sintomas usuais da SA, que podem ser agrupados em duas classes principais: a do déficit na interação social e a dos interesses obsessivos e restritos.
Consideremos, primeiro, o déficit na interação social. Ele se constitui basicamente na falta de habilidades sociais, na incapacidade de iniciar conversas, no discurso egocêntrico. Embora em geral a pessoa deseje estabelecer contatos e vínculos afetivos com os demais, faltam-lhe condições para “conectar-se” emocionalmente.
A limitação na socialização já existe no autismo de baixa funcionalidade, no qual o comprometimento da sociabilidade vem acompanhado de um comprometimento cognitivo severo, que torna o nosso mundo inacessível para ele. Por isso podemos dizer que o autista é uma pessoa que vive em seu próprio mundo, enquanto o portador de SA é uma pessoa que vive em nosso mundo, mas ao seu próprio modo.
Uma notável característica neurológica dos portadores de SA é que, enquanto em pessoas normais a observação de expressões fisionômicas e gestos de outras pessoas estimula certas áreas do córtex pré-motor, diversamente da observação de objetos, em pessoas com autismo ou SA isso não acontece. Ou seja: a reação cortical às pessoas é semelhante à reação que se tem à observação de objetos. A causa neurológica exata ainda é desconhecida, mas se especula sobre uma falha no funcionamento dos “neurônios-espelho”, ou seja, de sistemas neuronais inatamente preparados para descarregar diante de estímulos como o da presença de fisionomias humanas, expressões faciais, movimentos corporais. Neurônios-espelho seriam de grande importância para o nosso aprendizado imitativo.
Importante é notar que esses dados neurológicos fornecem um indício explicativo da razão da pobreza de contato do portador de AS. Eles sugerem que o portador dessa síndrome não possui um adequado “mapa” das mentes neurotípicas, que a sua cegueira emocional e falta de empatia se deve a ausência de uma “teoria da mente”. Mais particularmente, ele não possui a capacidade de natural e inata de compreender sinais comportamentais como o olhar, a expressão fisionômica, os gestos, a fala, no contexto da interação social. Ele tem dificuldade, por exemplo, de distinguir naturalmente, pela expressão fisionômica, a raiva do medo. Uma característica complementar a essa é a dificuldade que o portador de SA tem de fazer uma adequada identificação dos próprios sentimentos.
Uma das conseqüências dessas deficiências é que o portador de SA não sabe ao certo como reagir em situações sociais. Ele não consegue se “sintonizar” com os demais. Não tem entendimento das “distâncias sociais”. Tende a um comportamento socialmente estranho e por vezes inoportuno. Falta a ele a espécie de reciprocidade afetiva e comportamental necessária ao jogo de dar e receber que alimenta os vínculos emocionais. Faz pouco contato ocular com os interlocutores. Tudo isso causa no portador de SA uma grande ansiedade e insegurança frente a qualquer contato social e uma subseqüente tendência ao isolamento. O fado interior do portador de Asperger foi bem resumido em uma poesia de Edgar Alan Poe intitulada Alone:


From childhood’s hour I have not been
As others were – I have not seen
As others saw – I could not bring
My passions from a common spring –
From the same source I have not taken
My sorrow – I could not awaken
My hearth to joy at the same tone –
And all I lov’d – I lov’d alone.

O dia-a-dia de um portador de SA é como o de alguém vivendo em um país estranho, cuja língua desconhece e cujas convenções sociais são diferentes, e o efeito tardio do desamparo infantil já foi comparado com o de pessoas que passaram por campos de concentração. Com efeito, o repetido fracasso em lidar com situações que requerem habilidades sociais acaba por produzir um comportamento de evitação dessas situações, que pode se cronificar como fobia social.
Do que foi exposto não se deve concluir que o portador de SA não seja capaz de saber o que os outros sentem ou pensam. A diferença é que, diversamente das pessoas neurotípicas, ele não chega a isso através de uma reação empática espontânea, natural e imediata. Ele chega às conclusões sobre o que se passa nas mentes dos outros com base em experiências passadas e no raciocínio, inferindo que as pessoas devem sentir tais e tais emoções em tais e tais situações. É por precisar se valer da experiência e da razão para inferir ou adivinhar indutivamente o que se passa nas mentes das outras pessoas que o portador de SA tende a se apresentar como emocionalmente inadequado, errando freqüentemente em suas avaliações e reagindo tarde demais. Ele perde o ritmo das conversações e as suas respostas imediatas são quase inevitavelmente em alguma medida inadequadas, sendo freqüentemente vistas como estranhas, bizarras, inapropriadas ou rudes, sem que ele tenha tido a intenção de sê-lo, o que é percebido por ele sempre a posteriori, por raciocínio ou pela reação dos demais. Quando isso acontece o portador de SA fica embaraçado, embora possa não sentir culpa. Tais comportamentos podem facilmente levar as outras pessoas a pensarem que o portador de SA é uma pessoa insensível e grosseira.
Há outros traços menores que têm sido relatados e de alguma forma se relacionam às deficiências recém-relatadas. A fala do SA tende a ser monótona e o seu tom de voz é freqüentemente mais alto ou mais baixo do que as circunstâncias exigem. O portador de SA também costuma ter dificuldades de concentração e hipersensibilidade auditiva e tátil. Ele pode ter dificuldades no entendimento da linguagem figurativa, insistência em dizer a verdade, mesmo quando isso é inapropriado, falta de auto-censura, desdém por fofocas e conversa fiada, ingenuidade social. Ele pode ter dificuldade para o pensamento abstrato, falta de imaginação, tendência à racionalização de sentimentos e preferência pelas roupas confortáveis às que melhoram a aparência. Pode haver também déficits psicomotores, como o da motricidade fina.
O segundo traço fundamental dos portadores de SA são os interesses obsessivos e restritos. Enquanto pessoas neurotípicas focam as suas mentes em muitas coisas diversas, pessoas com SA (como os autistas em geral) tendem a focar as suas mentes intensamente e repetitivamente em uma coisa só. Por isso eles podem se deixar mesmerizar por alguma coisa (digamos, um quadro), não sendo capazes de parar de contemplá-la. O mais característico é que o portador de SA tende a desenvolver interesses obsessivos por coisas como coleções de pedras, de insetos, de filmes, ou por temas científicos particulares, rejeitando outros interesses. Tais interesses podem se modificar quando esgotados.
Uma explicação para os interesses obsessivos pode se a de que eles serviriam como uma válvula de escape contra as tensões e o isolamento inevitáveis. É conhecido o caso do Gilles Trehin, o jovem portador de autismo de alta funcionalidade que passou vinte anos de sua vida trabalhando muitas horas diárias nos desenhos extremamente detalhados de uma cidade imaginária com dois milhões de habitantes, que ele situou no sul da França.
Essas fixações cognitivas costumam servir apenas para aprofundar a inadequação social da pessoa com SA, aumentando a falta de interesses comuns. Devido aos interesses obsessivos a conversação do portador de SA tende a ser egocêntrica, centrada em suas fixações e sem atenção suficiente para os interesses que as demais pessoas normalmente compartilham entre si. Além do mais, a pessoa com Asperger precisa fazer raciocínios complexos para chegar a conclusões que para outros são intuitivas. É freqüente que o portador de SA tenha dificuldade em se aperceber do aborrecimento que causa aos outros com seus monólogos. Por sua vez, ele se sente aborrecido pelos múltiplos e variados interesses das pessoas neurotípicas, que para ele se afiguram desinteressantes ou irrelevantes.
Sem auxílio adequado a tendência de prognóstico de pessoas com SA não costuma ser positiva, sendo alto o índice de casos que terminam em distúrbios neuróticos como o de depressão severa. Estima-se que apenas 10% dos SA se tornem capazes de se auto-sustento. Em alguns poucos casos, porém, a pessoa com SA consegue colocar os seus interesses obsessivos a serviço da sociedade, tornando a sua inserção social bem sucedida. Esse é o caso de Vernon Smith, prêmio Nobel de economia, diagnosticado como portador de SA. Ele conta em entrevista que uma razão pela qual chegou a desenvolver uma teoria econômica inovadora é que não sentia a pressão de fazer o que os outros faziam, por indiferença ao feedback motivacional proporcionado pela sociedade científica. Isso lhe permitiu trabalhar por anos em um campo desconhecido, movido apenas por sua curiosidade e por um interesse continuado.
Especula-se também se a SA não seria capaz de fornecer uma pista para o que se convencionou chamar de “gênio”. Sugeriu-se que figuras exponenciais em ciência e arte, como Isaac Newton, Albert Einstein e Glenn Gould, poderiam ser classificadas como pertencentes ao spectrum autista. Newton foi um recluso que trabalhou 18 anos em Cambridge, e que ao mudar-se para Londres não deixou nenhum amigo para trás. Einstein demorou muito para aprender a falar, tinha interesse obsessivo pelos problemas da física e, embora mantendo vida social, se confessava incapaz de relacionamentos afetivos profundos. Aos trinta e dois anos o pianista Glenn Gould abandonou a sala de concertos, passando a viver uma vida noturna em seu apartamento em Toronto; no final de sua curta vida sofria de depressão e hipertensão, só se comunicando com as pessoas por telefone e por cartas. Se essa lista for correta, então não será difícil estendê-la, incluindo nela figuras como as de Descartes, Kant, Frege e Kurt Gödel. Poderíamos incluir romancistas nessa lista? Parece menos provável, pois o portador de SA carece de imaginação social. Em compensação, sabemos que Dostoiévsky, Flaubert e Machado de Assis eram epilépticos. Será que a epilepsia tem a ver com imaginação literária? Tais especulações são controversas e o que sabemos ainda é pouco. Mas parece provável que o autismo de alta funcionalidade seja mais freqüente entre acadêmicos.
Não há cura para a SA, mas a consciência da condição é importante, tanto para o seu portador quanto para os familiares, pois permite um entendimento mais adequado do que acontece e o recurso a estratégias de tratamento eficazes. O portador da síndrome, curiosamente, corre maiores riscos quando abandona a família e os estudos para entrar na vida profissional, pois não é capaz de entender o que as pessoas dele esperam, nem o que ele deve procurar ou evitar, ficando à mercê do acaso e precisando de auxílio.
Como foi enfatizado é possível que portadores de SA se tornem pessoas úteis para a sociedade. Biólogos notaram que se as combinações de genes que produzem a SA e que podem produzir graus mais profundos de autismo trouxessem apenas resultados ruins, a seleção natural teria feito com que tais combinações fossem bloqueadas e desaparecessem. Elas só são possíveis porque se demonstraram evolucionariamente úteis à sobrevivência da espécie, posto que uma sociedade precisa de neurodiversidade para que cada indivíduo possa combinar as suas habilidades próprias com as dos demais, de modo produzir resultados melhores para todos. Por isso, antes de rotular a SA como uma anormalidade, deveríamos nos perguntar se não seria melhor considerá-la uma das muitas formas da natureza humana.

Para mais informações:
Para uma introdução geral à síndrome de Asperger, ver o artigo da Wikipedia. Para filmes, ver no Youtube: “Asperger syndrome”, “autism”, “mirror neurons”, “Ramachandran”, “Vernon Smith”, “Gilles Trehin”, “The Woman who Thinks like a Cow” e “Life and Times of Glenn Gould”; para chats entrar no site Wrong Planet; há um questionário chamado Autism-Spectrum Quotient, que serve como elemento auxiliar no diagnóstico de SA e pode ser facilmente obtido na internet.

[1] http://www.filosofia.cchla.ufrn.br/claudio/#inicio
[2] Uma síndrome é um conjunto mais ou menos definido de sinais e sintomas. Um caso típico é a síndrome de insuficiência cardíaca. É importante notar que os sinais e sintomas costumam vir causalmente ligados uns aos outros, o que explica porque eles costumam vir juntos.


Veja também o depoimento do professor Claudio Costa (UFRN), um dos mais destacados especialistas brasileiros em filosofia da linguagem aplicada à arte.

http://www.youtube.com/watch?v=64mEKoP3dKg