sábado, 1 de abril de 2017

Hugo, um amigo com asperger


Aspectos Previdenciários

Por Nara Rejane Marques de Vargas
A Síndrome de Asperger é uma perturbação global de desenvolvimento, de etiologia ainda desconhecida. As características associadas são referidas pelo Doutor Pedro Silva Carvalho, Médico Psiquiatra, por “[...] deficit de aquisição de competências sociais, dificuldade nas relações interpessoais, inteligência normal ou acima da média com fraca coordenação e percepção grafo-espacial; interesses restritos ou preocupações obsessivas”.[1]
Esta síndrome representa uma desordem neurobiológica que é, muitas vezes, classificada como uma Pervasive Develop Mental Disorders (PDD). É caracterizada por desvios e anormalidades em três amplos aspectos do desenvolvimento: interação social, uso da linguagem para a comunicação e certas características repetitivas ou perseverantes sobre um número limitado, porém intenso, de interesses.
O Psiquiatra austríaco Hans Asperger escreveu sobre crianças que eram muito inteligentes, com vocabulário acima da média, mas que apresentavam uma série de comportamentos comuns em pessoas com autismo, como deficiências marcantes no relacionamento social e na habilidade de comunicação. Esta condição foi chamada de Síndrome de Asperger, em 1981. Em 1984, a Síndrome foi incluída, pela OMS, na Classificação Internacional de Doenças (CID.10), manual utilizado pelos profissionais da saúde mental, e classificada sob o registro número F84.5.[2]
A Síndrome de Asperger é descrita como transtorno de validade nosológica incerta, caracterizado por uma alteração qualitativa das interações sociais recíprocas, semelhante à observada no autismo, com um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Ele se diferencia do autismo essencialmente pelo fato de que não se acompanha de um retardo ou de uma deficiência de linguagem ou do desenvolvimento cognitivo. Os sujeitos que apresentam este transtorno são em geral muito desajeitados. As anomalias persistem frequentemente na adolescência e idade adulta. O transtorno se acompanha por vezes de episódios psicóticos no início da idade adulta.
Embora seja relacionada ao autismo, portanto, diferencia-se deste tendo uma especificação própria. Esta diferença dá-se porque os indivíduos com a Síndrome de Asperger não apresentam qualquer atraso significativo de desenvolvimento de fala ou cognitivo, ao contrário, geralmente têm elevadas habilidades cognitivas (pelo menos Q. I. Normal, às vezes indo até as faixas mais altas) e funções de linguagem normais, se comparadas a outras desordens, no entanto, é importante que este receba educação especializada o mais cedo possível.
O termo “Síndrome de Asperger” foi usado pela primeira vez por LornaWing (1981) no seu trabalho de investigação sobre o autismo, para prestar homenagem a Hans Asperger pelo seu trabalho que, até a época, não havia sido reconhecido (CULMINE; LEACH; STEVENSON, 2006).
Em 1983, Wing enuncia as principais características da Síndrome: (i) discurso repetitivo e pedante; (ii) interpretação muito literal da linguagem; (iii) pouca comunicação não verbal; (iv) falta de empatia; (v) pouca ou nenhuma capacidade de criar amizades; (vi) interação social unidirecional, ingênua e inapropriada; (vii) interesse intenso em determinados assuntos; (viii) dificuldade com mudanças, perseveração em comportamentos estereotipados; e (ix) movimentos pouco coordenados e posturas estranhas.[3]
Um dos sintomas mais característicos da Síndrome de Asperger refere-se à preocupação com padrões restritos de interesse. Em contraste com o autismo, quando outros sintomas nesta área podem ser muito acentuados, os indivíduos com a Síndrome não deixam de relatar e expor seus conhecimentos e preocupações excessivos acerca de um determinado assunto sobre o qual adquirem grande conhecimento. Isso normalmente é demonstrado em atitudes e comportamentos, e nas interações sociais, pois estes indivíduos falam constantemente do mesmo tema, não desviando o assunto, mesmo quando interrompidos. É comum, inclusive, que se atenham a um determinado assunto por mais de dois anos seguidos, imergindo frequentemente na profundidade de descobertas e de domínio sobre o tema, de forma a ocupar todo seu tempo.
Este comportamento é peculiar nas pessoas com a Síndrome em razão da sua extraordinária capacidade de guardar informações sobre tópicos muito circunscritos (exemplos: nomes de estrelas, mapas, nome de países, capitais, horários mundiais, tipo de plantas etc.). Podemos afirmar que estas são as características mais marcantes da Síndrome de Asperger, não esquecendo que a intensidade de cada sintoma e/ou característica varia de indivíduo para indivíduo, não sendo considerados para fins de diagnóstico o atraso da linguagem inicial, nem as dificuldades de coordenação motora.
O tratamento médico recomendado às pessoas com Síndrome de Asperger é psicoterapêutico individualizado, englobando as áreas de Psicologia, Fonoaudiologia, Psicopedagogia, Psicomotriz e Educacional. Em alguns casos, diante de diagnóstico de outras deficiências ou doenças associadas, como TDAH, Epilepsia, Esquizofrenia, Depressão, dentre outras, pode haver necessidade de uso de medicação. O tratamento para os indivíduos com a Síndrome de Asperger é contínuo e permanente, devendo sempre ser acompanhado e orientado por médico especializado (neurologista, psiquiatra e/ou psicólogo).[4]
Nesse contexto, a evolução que se tem verificado ao longo do tempo referente ao autismo tem convergido para um melhor esclarecimento sobre o transtorno, pois o mundo autista é uma realidade complexa que possui conceitos distintos, mas que se cruzam em determinados pontos. Contudo, é necessário ter em conta que as características da Síndrome não estão presentes em todos os indivíduos, nem se manifestam sempre do mesmo modo, podendo algumas pessoas ter os sintomas mais acentuados que outras, o que será verificado apenas através do tratamento contínuo, que poderá atestar, ainda, a capacidade de cada indivíduo para a prática de atos da vida civil, inclusive para o trabalho.

Capacidade ou incapacidade?

Estudos comprovam que a pessoa com Síndrome de Asperger diagnosticada precocemente, isto é, ainda na primeira infância, possui grandes chances de se adaptar ao meio e ter uma vida “normal”, inclusive com amplo exercício da sua capacidade civil. Por óbvio, que as dificuldades e limitações, principalmente no campo social, sempre persistirão, contudo de forma leve, sem progressão ou outras complicações, perfeitamente adequadas ao meio, inclusive para o trabalho. A exemplo disto, podemos citar vários famosos que foram diagnosticados com a Síndrome e que são altamente habilidosos e bem-sucedidos em seus ofícios: Temple Grandin[5]; John Elder Robinson[6]; Mark Haddon[7], Lionel Messi[8], dentre outras personalidades que são consideradas gênios da humanidade[9].
Por isso, o tratamento adequado e o diagnóstico são fundamentais para afastar a incapacidade do indivíduo para o trabalho, pois os sintomas tendem a ficar imperceptíveis ao longo do tempo; ao contrário, a ausência de diagnóstico e tratamento precoces tendem a agravar os sintomas da Síndrome, levando o indivíduo a se isolar do mundo cada vez mais, tornando-o um autista clássico, totalmente incapaz de compreender ou responder pelos seus atos.
Há um limite sutil entre a normalidade e a deficiência da pessoa com Síndrome de Asperger que pode depender de muitas variáveis, como o contexto familiar ou o ambiente escolar, os quais refletirão diretamente no tratamento terapêutico. São as circunstâncias que permitem a um adolescente com Asperger desenvolver a inteligência que, aliada a uma incansável dedicação às matérias preferidas, pode abrir caminho para a aceitação do seu comportamento, por ele mesmo e por toda a sociedade. Em contexto diverso, o mesmo adolescente poderia ser rotulado como deficiente antes de ter a possibilidade de mostrar seu valor.
“Não existe o branco ou o preto, uma linha de demarcação precisa entre uma personalidade normal e uma patológica”, sustenta Temple Gardin, a Professora autista que se tornou famosa ao ter sua história contada por Oliver Sacks, em Um antropólogo em Marte.
Neste sentido, a perícia médica deverá ser complexa, englobando tanto a questão médica, que deverá ser amplamente investigada, quanto o contexto social em que o indivíduo está inserido, pois, reitera-se, este aspecto influenciará em muito no desenvolvimento da pessoa com a Síndrome, a ponto de determinar a sua capacidade ou não para o exercício dos atos da vida civil.

Legislação

A Instrução Normativa nº 45/10, do INSS, consigna, em seu art. 385 (Subseção I, intitulada Do Serviço Social), exatamente os recursos técnicos que deverão ser utilizados pelo assistente social na avaliação da pessoa com deficiência:
Art. 385. Os recursos técnicos utilizados pelo assistente social são, entre outros, o parecer social, a pesquisa social, o cadastro das organizações da sociedade e a avaliação social da pessoa com deficiência aos requerentes do Benefício de Prestação Continuada – BPC/LOAS:
§ 1º O parecer social consiste no pronunciamento profissional do assistente social, com base no estudo de determinada situação, podendo ser emitido na fase de concessão, manutenção, recurso de benefícios ou para embasar decisão médico-pericial, por solicitação do setor respectivo ou por iniciativa do próprio assistente social, observado que:
[...]
IV – nas intercorrências sociais que interfiram na origem, na evolução e no agravamento de patologias, o parecer social objetivará subsidiar decisão médico-pericial;
[...]
§ 4º A avaliação social, em conjunto com a avaliação médica da pessoa com deficiência, consiste em um instrumento destinado à caracterização da deficiência e do grau de incapacidade, e considerará os fatores ambientais, sociais, pessoais, a limitação do desempenho de atividades e a restrição da participação social dos requerentes do Benefício de Prestação Continuada da pessoa portadora de deficiência.
[...]
Nota-se, a própria Instrução Normativa determina a realização conjunta de avaliação social e avaliação médico-pericial, para o caso de pessoa com deficiência, requerente de benefício previdenciário, circunstância aplicável obrigatoriamente no caso do indivíduo com Síndrome de Asperger.
Nesta hipótese, não ocorrendo a avaliação social, a perícia médica identificará a existência da doença neurológica crônica, porém, o diagnóstico poderá ser positivo – a doença é incapacitante em função dos sintomas já explicitados – ou negativo – em função da inexistência de comprometimento intelectual pela Síndrome –, mas não será um diagnóstico preciso e pautado nas reais necessidades da pessoa que requer o benefício previdenciário.
Realizada a perícia médica complexa, sendo considerada a pessoa com deficiência, incapaz para a vida independente e para o trabalho, o requerente faz jus ao Benefício de Prestação Continuada. Atenta-se para que, nos termos dos §§ 2º e 6º do art. 20 da Lei Orgânica da Assistência Social (nº 8.742/93).
Art. 20. [...].
§ 2º Para efeito de concessão deste benefício, considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas.
[...].
§ 6º A concessão do benefício ficará sujeita à avaliação da deficiência e do grau de impedimento de que trata o § 2º, composta por avaliação médica e avaliação social realizadas por médicos peritos e por assistentes sociais do Instituto Nacional de Seguro Social.
Extrai-se do art. 20 que a pessoa com Síndrome de Asperger terá direito ao benefício desde que preenchidos os requisitos legais, o que comprova, mais uma vez, que a perícia médica deve ser complexa. E mais, em vista da possibilidade real de reduzir os sintomas a longo prazo, através de tratamento e acompanhamento especializados, ao ponto de a pessoa adquirir independência total para os atos da vida civil, inclusive para o trabalho, tal perícia deve ser realizada a cada dois anos, conforme preceitua o caput do art. 21 subsequente: “O benefício de prestação continuada deve ser revisto a cada 2 (dois) anos para avaliação da continuidade das condições que lhe deram origem”.
Enfim, para pacificar a questão em torno do espectro do autismo, principalmente no que se refere ao acesso à Previdência Social, foi instituída a Lei nº 12.764/12, que trata sobre a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista.
Esta Lei garante expressamente o direito de acesso à Previdência Social aos autistas e pessoas com Síndromes relacionadas, ratificando que se trata este de um direito fundamental e social, garantido amplamente pela Constituição brasileira também àqueles que comprovarem a situação de deficiência (arts. 1º, inciso III; 5º; 6º; 23, inciso II; 203, inciso IV).
Sem dúvida alguma, a Lei nº 12.764/12 se afigura um marco para o Brasil no que se refere aos direitos dos autistas, porém, muito ainda tem que ser feito em termos de políticas públicas para dar efetividade às normas já existentes, a fim de garantir a esses indivíduos o acesso, principalmente, à Previdência Social.

Considerações finais

A pessoa com Síndrome de Asperger faz jus ao Benefício de Prestação Continuada previsto na Lei Orgânica da Assistência Social desde que comprove ser incapaz de forma total e permanente, sendo que tal situação deverá ser revista a cada dois anos nos termos da Lei.
Nada obstante, pesquisa jurisprudencial10 permite perceber que o benefício é concedido, na maioria das vezes, a crianças menores de 12 anos, haja vista que, nesta fase, os sintomas são muito acentuados, e as áreas de comunicação e linguagem são muito comprometidas, levando, sim, ao diagnóstico de incapacidade total e permanente.
Com relação aos adultos com Síndrome de Asperger, para o diagnóstico, há que se avaliar com maior cuidado a evolução do quadro, pois a maioria, se tratada precocemente, consegue alcançar a independência para todos os atos da vida civil, inclusive para o trabalho.
Diante disso, não há como determinar se um adulto com Síndrome de Asperger é capaz ou incapaz. Tal perspectiva, obrigatoriamente, dependerá do diagnóstico precoce da deficiência, do tratamento e do acompanhamento especializado. Se, em perícia médica, a fim de analisar a deficiência para a concessão de benefício, restar comprovada a incapacidade para o trabalho, não levando em conta apenas a questão neurológica, que é permanente e irreversível, mas também o quadro geral do paciente, quadro clínico e situação socioeconômica, há de se conceder tal benefício.
NOTAS
[1] CARVALHO, Pedro da Silva. Estudo sobre a Síndrome de Asperger. Disponível em:. Acesso em: 05.03.13.
[2] ROBISON, John Elder. Olhe nos meus olhos. Minha vida com a Síndrome de Asperger. São Paulo: Larousse do Brasil, 2008, p. 17.
[3] Apud CARVALHO, Pedro da Silva. Loc. Cit.
[4] PEREIRA, Iara Brandão. Entendendo a Síndrome de Asperger. Publicação em 14.02.12. Disponível em:. Acesso em: 03.03.14.
[5] SACKS, Oliver. Um antropólogo em Marte. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Disponível em:. Acesso em: 12.11.13.
[6] ROBISON, John Elder. Op. Cit., p. 17.
[7] HADDON, Mark. O estranho caso do cachorro morto. 10. Ed. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2009, p. 257-258.
[8] Disponível em:. Acesso em: 03.04.14.
[9] GARCIA, Vera. Síndrome de Asperger e os maiores gênios da humanidade. Divulgado em 20.06.12. Disponível em:. Acesso em: 01.03.14.
[10] TRF 2ª Região – AC nº 200651190003285-RJ, Rel.ª Juíza Fed. Convocada Márcia Helena Nunes, julgado em 18.09.09. Disponível em:. Acesso em: 10.03.14

https://fontanavargasadvs.jusbrasil.com.br/artigos/124333548/sindrome-de-asperger

domingo, 8 de dezembro de 2013

Desmistificando os mitos do autismo

Por Rachel Cohen-Rottenberg
 
Na Primavera passada, eu e minha família nos mudamos de nossa fazenda de 22 acres no oeste de Massachusetts para o centro de Brattleboro. Foi o início de uma nova vida juntos.

Seis meses mais tarde, aos 50 anos de idade, fui diagnosticada com a síndrome de Asperger, uma forma de autismo de alto grau de funcionamento. Longe de ser um momento de desgosto, o meu diagnóstico foi um motivo de grande celebração. Pela primeira vez, a minha vida fez sentido.

Eu sempre me senti muito diferente das outras pessoas. Eu sempre tinha um sentimento de isolamento, sem que eu pudesse encontrar qualquer tipo de explicação.

O tema do autismo sempre tinha me fascinado, mas a idéia de que eu poderia ser autista parecia absurdo. Eu tinha ido para a faculdade, fiz amigos, e trabalhava em tempo integral. Eu havia casado e constituído uma família. Como eu poderia ser autista? Afinal, as pessoas autistas vivem trancadas em seus próprios mundos estranhos, incapazes de se comunicarem ou conviverem em sociedade.

Ou então eu pensei. Eu já havia percorrido um longo caminho desde então. No processo de compreender-me como uma mulher autista, eu tinha de me desfazer de todos os mitos que eu já tinha ouvido sobre o assunto. Estes mitos incluem o seguinte.

***

Mito nº 1: Todas as pessoas autistas são não-verbais e de baixo funcionamento. 

O espectro do autismo é uma condição. Nos Estados Unidos, uma pessoa em cada 150 é autista, e mais da metade de todas as pessoas autistas têm síndrome de Asperger. Além disso, muitas pessoas sob o espectro encontram-se entre o alto grau de funcionamento e o baixo funcionamento extremo. Na verdade, algumas pessoas começam mais severamente afetadas e podem tornar-se de alto funcionamento à medida que crescem e aprendem.

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Mito nº 2: O autismo é uma doença mental.

Autismo não é um distúrbio psicológico. É uma condição neurológica em que o cérebro e o sistema nervoso são extremamente sensíveis a estímulos sensoriais.

Quando uma pessoa recebe informações sensoriais provenientes do ambiente, elas intuitivamente filtram, priorizam, e respondem a informação de uma forma proposital. Para as pessoas autistas, o processamento sensorial funciona de modo muito diferente. A informação vem com toda a carga, sem nenhuma filtragem.
Por exemplo, eu não tenho quase nenhuma capacidade de filtrar informações auditivas. Algumas vezes, ouço uma cacofonia de sons e vozes, todos ao mesmo volume alto. É difícil para mim ter uma conversa com um monte de som em segundo plano.

Locais barulhentos, cheios de gente ou situações desestruturadas provocam imediatamente em mim uma sobrecarga sensorial. Também possuo uma experiência visual do mundo muito intensa. Estou constantemente analisando o ambiente ao meu redor, observando os mínimos detalhes, na tentativa de ordenar-los em algum tipo de padrão. Porque o mundo visual muda constantemente, e meu processo de organização nunca pára.

Só recentemente que eu percebi que a maioria das pessoas não tem a experiência visual do mundo com a mesma intensidade que o faço.

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Mito nº 3: Pessoas autistas não sentem empatia.

Ao contrário do que se pensa, as pessoas autistas têm muitas vezes um excesso de empatia. No entanto, devido às nossas sensibilidades sensoriais, nem sempre podemos ser capazes de demonstrar isso.

Quando criança, eu era muito sensível e frequentemente experimentava o sofrimento dos outros. Por exemplo, em uma escola hebraica, assistimos a um filme que mostrava o que tinha acontecido nos campos de concentração nazistas durante o Holocausto. Eu vi filmes em que pessoas eram alinhadas na beira de uma vala e eram fuziladas. A empatia que senti pelas pessoas foi imediata. Senti o mesmo que eles estavam enfrentando, como se aquilo também tivesse acabado de acontecer comigo naquele momento.

Durante muitos anos desde então, tenho consciência de que quando eu ando em uma sala cheia de gente, vou sentir a experiência emocional de todos os presentes. É como se todas as emoções vinhessem direto através de mim. Todo esse sentimento vem muito mais rápido do que eu posso processá-lo, eu sinto o seu impacto. Tornar-me muito desorientada, tanto que tenho dificuldade em sentir ou pensar em qualquer coisa.

Meu marido normalmente percebe quando eu estou tendo essa experiência. Ele diz: "Você está fora do ar, não é mesmo?" Para o que só posso afirmar com a cabeça um enfático "Sim".

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Mito nº 4: As pessoas autistas são antisociais.

Pessoas autístas muitas vezes têm dificuldades de comunicação porque não são capazes de ler intuitivamente dicas não verbais, tais como expressões faciais e linguagem corporal.

Eu aprendi que recentemente dicas não verbais perfazem cerca de 90 por cento de qualquer conversa. Até o meu diagnóstico, eu não tinha idéia de que a linguagem não verbal sequer existia.

Quando converso, presto bastante atenção as palavras que acabei de ouvir. E, por isso , eu gasto mais tempo ouvindo, traduzindo, pensando e respondendo a uma pessoa neuro-típica.

A minha resposta as vezes é um pouco atrasada. Muitas vezes as pessoas interpretam a minha resposta demorada como uma falta de interesse. Sob a maioria das circunstâncias, elas estão erradas.

Eu não acho que seja possível para mim ficar muito tempo sem conversar com outras pessoas. No entanto, 10 minutos de conversa com uma pessoa pode ser bastante cansativo. Uma conversa com mais de uma pessoa ao mesmo tempo é quase impossível. E quando você acrescentar à mistura da minha sensibilidade sensorial e emocional, obtém-se uma pessoa que requer uma grande dose de solidão.

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Mito nº 5: As pessoas autistas não fazem contato visual, porque elas não se importam com o que as pessoas têm a dizer.

Acho contato visual muito difícil, mas não tem nada a ver com saber se estou interessada em o que alguém está me dizendo. Na verdade, se eu estou interessada, eu costumo desviar o olhar da pessoa, a fim de pensar claramente.

Ao longo dos anos, em uma tentativa de mascarar essa minha dificuldade, eu tenho desenvolvido uma série de disfarces, incluindo a capacidade de fazer e manter contato visual. No entanto, a habilidade não vem naturalmente.

Exceto para o meu marido e minha filha, eu utilizo um tímido contato visual com a maioria das pessoas, sim, da mesma forma quando lanço um tímido olhar diretamente para o sol. Quando eu olho para os olhos de uma pessoa, tenho essa experiência profunda que para mim é uma sensação esmagadora.

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Mito nº 6: As pessoas autistas não podem ter as suas próprias famílias.

Muitas pessoas autistas são casadas e criam filhos. Tanto o meu marido como minha filha são neuro-típicos, e eu adoro eles.

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Mito nº 7: As pessoas autistas são quebra-cabeças com peças faltando. 

A utilização da metáfora "quebra-cabeças faltando peças" para descrever autismo é uma grande fonte de dor para mim.

Antes do meu diagnóstico, eu costumava sentir que eu tinha peças desaparecidas. Depois que eu descobri que eu tinha a síndrome de Asperger, todas as peças da minha vida começaram a se unir para formar um quadro coerente, uma imagem reconhecível. Pela primeira vez na minha vida, me senti completa.

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Mito nº 8: As pessoas autistas têm baixa inteligência.

Pessoas autístas têm diferentes níveis de inteligência, assim como a as pessoas neuro-típicas também. O teste utilizado para medir a inteligência fez uma profunda diferença no resultado da avaliação.

Em 2007 um estudo realizado com crianças autistas e neuro-típicas utilizou dois testes de QI: o teste WISC (que se baseia em perguntas e respostas verbais) e os Raven's Progressive Matrices teste (que mede a capacidade de fazer abstração de alto nível e raciocínio complexo).

Nenhuma criança autista fez pontuação alta no teste de inteligência WISC; na verdade, um terço pontuou na faixa de baixa inteligência. No entanto, um terço das crianças autistas pontuaram na gama de alta inteligência sobre o teste Raven's. Adultos autistas e neuro-típicos foram testados, também, com os mesmos resultados.

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Mito nº 9: as pessoas autistas não gozam a vida.

Para algumas pessoas autistas, esta afirmação é verdadeira, tal como é verdade para qualquer outro grupo de pessoas. No entanto, muitos de nós encontramos uma grande alegria em nossos entes queridos, e podemos focar como um raio laser sobre os nossos interesses especiais durante horas a fio. Minha família, meus amigos, a minha arte, a minha música, meus textos, e meu trabalho comunitário são constantes fontes de alegria e satisfação.

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Mito nº 10: O autismo é uma doença que necessita de uma cura. 

Esta declaração é o foco do debate apaixonado. Como muitos outros, eu não considero o autismo uma doença. Os pesquisadores do Instituto Brain-Mind na Suíça escreveram em 2007 um artigo, "A pessoas autistas são indivíduos com notáveis talentos e capacidades muito acima da média, como: maior percepção, atenção e memória. Na verdade, é essa hiper-funcionalidade que poderia tornar os indivíduos debilitados. "

Atualmente, não existe cura para o autismo. Eu entendo porque algumas pessoas sobre o espectro possam querer uma cura. Ser autista, mesmo com um alto nível de funcionamento, é muito difícil. Para as pessoas que estão sob o grau severo do espectro, a condição pode ser verdadeiramente incapacitante.

Pessoalmente, eu não quero ser curada. Autismo me faz quem eu sou, e ele me deu muitos dons.

Sou sensível, empática, e artística. Vejo uma grande beleza no mundo, e eu sinto muito profundamente suas injustiças. Eu sou muita direta nas minhas palavas e, por essa razão, as pessoas intuitivamente confiam em mim.

Não gostaria de ser diferente.

Estou orgulhosa de quem eu sou.

Levou-me 50 anos para descobrir a verdade sobre a minha vida.

No tempo que me resta, planejo mostrar a todos o valor desta verdade.

Fonte: http://www.commonsnews.org/test3/story.php?articleno=694

LEI Nº 12.764, DE 27 DE DEZEMBRO DE 2012

Sancionada pela presidente Dilma com vetos, e Institui a Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista; e altera o § 3o do art. 98 da Lei no 8.112, de 11 de dezembro de 1990.

http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12764.htm