sábado, 29 de agosto de 2009

GUIA PARA PROFESSORES


COMPREENDENDO OS ESTUDANTES COM SÍNDROME DE ASPERGER


Tradução do italiano e do inglês a partir do texto: Williams, Karen -“Understanding the student with Asperger syndrome: guidelines for teachers”. Focus on autistic behavior, vol. 10, n.2, June, 1995.


As crianças com síndrome de Asperger (SA) apresentam um desafio especial para o ambiente pedagógico. Este artigo fornece aos professores uma descrição de sete características peculiares da síndrome, além de sugestões e estratégias baseadas na experiência da autora com o ensino de crianças com SA.


As crianças com SA são normalmente vistas como excêntricas e esquisitas pelos colegas, as inaptidões e inabilidades sociais freqüentemente as tornam vítimas de gozação ou bodes expiatórios. O seu desajeitamento e interesses obsessivos sobre assuntos que não interessam a ninguém se juntam ao seu comportamento esquisito. As crianças com SA não possuem a capacidade de compreender espontaneamente as relações humanas ou as regras e convenções sociais; são muitas vezes ingênuas e freqüentemente carecem de bom senso. Sua inflexibilidade e incapacidade de “administrar” mudanças faz com que estes indivíduos se estressem facilmente e sejam vulneráveis emocionalmente. Ao mesmo tempo, muitos dos portadores de SA (a maioria são do sexo masculino) tem inteligência média ou superior e tem grande capacidade de memorização. Aos seus interesses pouco comuns podem levá-los a grandes resultados mais tarde na vida.


A SA é considerada uma desordem situada na porção superior do espectro do autismo. Comparando os indivíduos pertencentes a este espectro, Van Krevelen afirmou que as crianças autistas de baixa eficiência “vivem no seu próprio mundo”, enquanto as com autismo de alta eficiência “vivem no nosso mundo, mas da sua própria maneira”. Naturalmente as crianças SA não são todas iguais. Cada criança SA tem suas particularidades e os sintomas se manifestam de modos específicos em cada indivíduo. Por isso não há receita única para melhorar sua socialização; cada caso é um caso.


As sugestões abaixo são gerais e devem ser adaptadas às necessidades de cada estudante. Os exemplos de intervenções nas salas de aula são ilustrados com experiências de ensino na Universidade de Michigan.


1) APEGO À ROTINA.


As crianças com SA são facilmente superexcitados com a mínima mudança, são muito sensíveis e estressáveis pelo ambiente e algumas vezes se apegam a rituais. São ansiosos e tendem a preocupar-se obsessivamente quando não sabem o que os espera; perdem o controle facilmente com estresse, cansaço e sobrecarga sensorial (música, barulho, luz, cheiro, etc.).


Sugestões de programação:


- Proporcionar um ambiente previsível e seguro;


- Minimizar as mudanças/alterações;


- Oferecer uma rotina diária consistente: a criança com SA deve compreender a rotina da cada dia e saber o que a que tenha condições de concentrar-se objetivamente;


- Evitar as surpresas: preparar a criança detalhada e antecipadamente para atividades especiais, modificações de agenda e na rotina, mesmo se mínimas;


- Diminuir o medo do desconhecido expondo a criança a novas atividades, professores, aulas, escola e locais, mas sempre depois de informar à criança sobre a mudança com a maior antecipação possível. Por exemplo: quando a criança for mudar de escola, deve encontrar-se com o novo professor, fazer um passeio pela nova escola e ser informado antecipadamente da nova rotina. O transporte para a escola nova deve passar pela escolha velha nos primeiros dias para que a criança se habitue ao novo trajeto. O auxiliar de ensino deve procurar alguma área de interesse especial da criança.


2) COMPROMETIMENTO DAS INTERAÇÕES SOCIAIS


As crianças SA mostram-se incapazes de entender regras complexas de interação social são ingênuas, são extremamente egocêntricas, podem não apreciar o contato físico, não compreendem ironia, metáforas e algumas brincadeiras, usam um tom de voz monótono e empolado, pouco natural; usam de modo inadequado o olhar e a linguagem corporal; são insensíveis e lhes falta tato; não compreendem os sinais sociais; não sabem avaliar e interpretar as regras sociais, exibem habilidades limitadas para iniciar e manter uma conversação; tem um discurso bem desenvolvido mas pobre do ponto de vista comunicativo; são algumas vezes apelidados de “pequenos professores”, por causa do estilo de prosa semelhante a um adulto e pedante; são facilmente enganados (não percebem que às vezes os outros podem mentir ou trapacear) e usualmente deseja inserir-se socialmente.


Sugestões de programação:


- Proteger a criança da ridicularização;


- Nos grupos de idade mais avançada, tentar educar os colegas em relação às crianças SA quando a capacidade social é grave, por meio da descrição dos seus problemas; elogiar os colegas quando o tratam com compreensão; este trabalho pode evitar a ridicularização ao mesmo tempo que promove a empatia e a tolerância nas outras crianças;


- Enfatizar as habilidades de aproveitamento acadêmico das crianças com SA por meio da cooperação de aprendizado, onde a sua habilidade de leitura, vocabulário, memória, possam ser vistas como um privilégio pelos colegas, gerando aceitação;


- Muitas crianças com SA querem fazer amigos, mas simplesmente não sabem como interagir; eles podem ser instruídos sobre como reagir aos sinais sociais e a ter um repertório de respostas para várias situações sociais; ensinar as crianças o que dizer e como dizer; simular interações dois-a-dois e permitir o “role-playing”. A interação social destas crianças melhora somente depois que são instruídos sobre as regras que os outros apreendem intuitivamente. Um adulto com SA afirmou que havia aprendido a “imitar o comportamento humano”. Uma professora universitária com SA conta que as suas tentativas de compreender as interações humanas a faziam sentir-se como “um antropólogo em Marte”;


- Apesar dessa falta de compreensão das emoções dos outros, as crianças com SA apreendem o modo correto de se comportar. Quando insultam alguém de maneira não intencional, sem tato ou insensivelmente, deve ser explicado a eles por que o comportamento foi inadequado e qual a forma apropriada. Os indivíduos com SA devem aprender intelectualmente as habilidades sociais, já que lhes faltam o instinto e a intuição para isso.


- Estudantes com SA mais velhos podem se beneficiar da atuação de um amigo protetor/guia/tradutor. O educador pode treinar um colega sensível e sentá-los próximos. O companheiro pode ajudar o amigo no ônibus, nas férias e tentar envolvê-lo nas atividades escolares.


- As crianças com SA tendem a ser fechadas; o professor deve estimular o seu envolvimento com os colegas. Encorajar a socialização ativa e limitar o tempo gasto nos seus interesses isolados. Por exemplo, sentar à mesa do lanche um auxiliar de ensino que encoraje ativamente a criança a participar da conversação de seus coetâneos não só através da solicitação de suas opiniões e fazendo perguntas, mas também estimulando sutilmente os outros meninos a fazer o mesmo.


3) INTERESSES RESTRITOS


Os SA tendem a ter obsessões excêntricas ou bizarras, fixações intensas (algumas vezes ligados obsessivamente a coisas incomuns). Tendem a permanecer inflexivelmente sobre sua área de interesse, fazem perguntas repetitivas sobre esta, seguem suas próprias inclinações independente das demandas externas e algumas vezes se recusam a aprender qualquer coisa fora do seu limitado campo de interesse.


Sugestões de programação:


- Não permitir que as crianças SA conversem de modo perseverante ou façam perguntas sobre interesses isolados (só delas). Limitar este comportamento através da determinação de um período específico do dia durante o qual o SA possa falar sobre o seu tema de interesse. Por exemplo: para um menino que era fixado em animais e fazia inúmeras questões sobre as tartarugas e animais domésticos era permitido fazer perguntas somente durante o intervalo. Isto se tornou parte de seu cotidiano e ele rapidamente aprendeu a se conter quando começava a fazer perguntas em outras horas do dia.


- Usar reforços positivos seletivamente direcionados a moldar um comportamento desejado é a estratégia fundamental para ajudar a criança SA (Dewey, 1991). Estas crianças respondem aos elogios (no caso de um incansável perguntador, o professor deve elogiá-lo de forma consistente assim que pára e congratulá-lo quando permitir que os outros falem). A criança também pode ser elogiado por comportamentos simples e adequados para crianças da mesma idade.


- Algumas crianças SA não vão querer fazer tarefas fora da sua área de interesse. Deve se exigir firmemente a execução da tarefa. Deve ser explicado muito claramente à criança que ela não está no comando da situação e que deve seguir as regras. Ao mesmo tempo, entretanto, é preciso encontrar um meio termo, dando a elas a oportunidade de satisfazer os seus interesses.


- Para crianças particularmente recalcitrantes é preciso inicialmente individualizar todas as tarefas relacionadas a sua área de interesse (se são os dinossauros, então oferecer frases de gramática, leituras ou exercícios sobre dinossauros), introduzir gradualmente outros assuntos nas tarefas.


- Os estudantes devem receber tarefas que façam a ligação de seus interesses com o assunto estudado. Por exemplo, durante estudos sociais relacionados a um país , para uma criança fixada em trens, pode ser atribuída a tarefa de pesquisa dos meios de transporte usados pela população daquele país.


- Usar a fixação da criança como maneira de ampliar o seu repertório de interesses. Por exemplo, durante uma pesquisa sobre as florestas pluviais, um estudante SA que era fixado em animais foi estimulado a estudar não somente os animais da floresta pluvial, mas a própria floresta como a casa dos animais. E assim foi motivado a estudar que a população local era forçada a matar os animais da floresta para poder sobreviver.


4) CONCENTRAÇÃO LIMITADA


As crianças com Asperger frequentemente se desligam das atividades de classe, distraídas por estímulos internos, são muito desorganizadas, tem dificuldades de manter a atenção (muitas vezes, não é que não possua capacidade de concentração e sim o seu foco é bizarro; o indivíduo SA não consegue perceber o que é relevante) e assim a sua atenção é dirigida a estímulos irrelevantes; tendem a se refugiar no seu complexo mundo interior de maneira mais intensa do que o “sonhar acordado” e tem dificuldade em aprender quando está em grupo.


Sugestões de programação


- Deve ser providenciada uma grande estruturação externa para que o SA seja produtivo em classe. As tarefas devem ser fragmentadas em pequenas unidades e devem ser oferecidos ao professor “feedback” e orientações freqüentes.


- As crianças com graves problemas de concentração se beneficiam de uma divisão das tarefas por períodos de tempo. Isto as ajuda a se organizar. Se uma tarefa na classe não for completada dentro do limite de tempo estabelecido ou ficar malfeita, ela deve ser completada durante o recreio ou no período destinado ao interesse especial da criança. As crianças com SA são às vezes obstinadas; as ordens devem ser firmes e o programa estruturado de forma a lhes ensinar que a obediência às regras leva a recompensas (esse tipo de programa motiva a criança a ser produtiva, aumenta a auto estima e baixa o nível de estresse, pois ela se enxerga como competente).


- No caso dos clássicos estudantes com SA, a concentração limitada, a lentidão e a grave desorganização tornam necessário que a sua carga de tarefas seja diminuída e que seja adicionado um tempo extra quando um educador de apoio providencia a estruturação necessária para completar a tarefa. (Alguns SA são incapazes de concentrar-se a tal ponto, que geram um estresse excessivo para os pais que ficam horas procurando fazer as tarefas com seus filhos).


- Fazer a criança sentar-se na primeira fileira e lhe fazer perguntas frequentes para ajudá-lo a acompanhar a aula.


- Utilizar sinais não verbais (por exemplo: bater gentilmente nas costas) quando a criança não estiver atenta.


- Se for utilizada a estratégia do amigo protetor, fazer com que os dois sentem-se lado a lado, para que o amigo possa lembrar ao AS de voltar à tarefa ou prestar atenção à aula.


- A professora deve encorajar ativamente o SA a abandonar seus pensamentos perseverantes e suas fantasias e concentrar-se na tarefa real. Essa é uma batalha constante, uma vez que a segurança deste mundo interior é muito mais atrativa do que o mundo real. Para as crianças menores, mesmo os períodos livres (free play) precisam ser estruturados, por que eles costumam permanecer tão profundamente imersos em fantasias solitárias e rituais, que perdem o contato com a realidade. Encorajar o SA a brincar com os colegas, sob uma rigorosa supervisão, não somente estrutura a brincadeira, mas oferece a possibilidade de colocar em prática habilidades sociais.


5) COORDENAÇÃO MOTORA LIMITADA


As crianças SA são fisicamente desajeitadas e desastradas; tem um caminhar desajeitado e endurecido; são mal sucedidas em brincadeiras/jogos que exijam habilidades motoras; apresentam deficiência motora fina que pode causar problemas de caligrafia, lentidão para escrever e prejudicar o seu desenho.


Sugestões de programação


- Desenvolver para o SA um programa especial de educação física se os problemas motores forem graves.


- Envolver o SA em um currículo de saúde/fitness em educação física ao invés de um programa de esportes competitivos.


- Não colocar o SA para participar de esportes competitivos, pois sua coordenação motora limitada o levará à frustração e à ridicularização por parte dos colegas. O SA não tem a compreensão social da coordenação das suas próprias ações com aquelas dos outros jogadores de um time.


- As crianças com SA devem ser inseridas em um programa de caligrafia altamente individualizado que vincule traçado e cópia sobre papel com a padronização dos movimentos na lousa. O professor, além das instruções verbais, deve guiar os movimentos da mão da criança repetidamente para formar as letras e as conexões entre elas. Uma vez que a criança tenha gravado o roteiro na memória ela poderá dizê-lo para si mesma e formar o arranjo de letras de maneira independente.


- As crianças menores com SA obtém maior benefício com a utilização de orientações (exemplos) desenhadas sobre o caderno que possam ajudar a controlar a dimensão e a uniformidade das letras por eles escritas. Além disto, os obriga a escrever cuidadosamente e com calma.


- Quando for determinar uma tarefa para os alunos, a lentidão de escrita da criança com SA deve ser considerada no cálculo do tempo necessário para sua realização


- Os indivíduos com SA necessitam, mais do que seus colegas, realizar as tarefas na classe (prosseguindo na hora do recreio, não somente oferecendo mais tempo, mas fornecendo estrutura e auxílio para que a criança possa concentrar-se sobre a tarefa) .


6) DIFICULDADES ACADÊMICAS


As crianças SA têm inteligência média ou superior à média (sobretudo na esfera verbal), mas lhes falta um nível elevado de pensamento e compreensão. Eles tendem a ser literais: as suas imagens são concretas e abstração está prejudicada. A sua linguagem pedante e o vocabulário sofisticado dão a falsa impressão de que estão compreendendo o que estão falando, mas na verdade simplesmente imitam aquilo que ouviram ou leram. Essas crianças frequentemente têm uma boa memória, mas de natureza mecânica; isto faz com que a criança responda como um vídeo-tape, que funciona em seqüências fixas. A capacidade de resolver problemas é reduzida.


Sugestões de programação


- Organizar programas acadêmicos altamente individualizados de forma a proporcionar resultados positivos consistentes. A criança SA necessita de grande motivação para não seguir os seus impulsos. O aprendizado deve ser gratificante e não provocar ansiedade.


- Não assumir que a criança tenha aprendido alguma coisa somente por que repete o que ouviu.


- Oferecer explicações adicionais e procurar simplificar quando os conceitos forem abstratos


- Tirar proveito da excepcional memória desses indivíduos: memorizar informações concretas é frequentemente o seu forte.


- Nuanças emocionais, múltiplos níveis de significado e relacionamentos pessoais presentes em romances não serão compreendidos.


- As redações desses indivíduos são repetitivas, pulam de argumento para outro e contem conotações verbais incorretas. Essas crianças muitas vezes desconhecem a diferença entre um conhecimento generalizado e suas opiniões pessoais e, portanto, assumem que o professor entende suas idéias nem sempre compreensíveis.


- Tem uma excelente habilidade de leitura, mas uma compreensão verbal pobre. Não deve ser presumido que compreendam aquilo que estão lendo de maneira fluente.


- O trabalho acadêmico pode ser pobre qualitativamente, pois a criança com SA não se motiva em áreas que não lhe interessem. As expectativas em relação a uma tarefa devem ser muito claras e firmes para melhorar a qualidade do trabalho produzido. O trabalho realizado dentro do prazo estabelecido pode ser completo mas sem capricho. A criança deve corrigir a tarefa durante o recreio ou no horário dirigido para seu “interesse especial”.


6) VULNERABILIDADE EMOCIONAL


As crianças SA têm inteligência para freqüentar um programa regular de educação, mas muitas vezes não tem os recursos emocionais para lidar com as demandas da classe. Estas crianças, por causa da sua inflexibilidade, facilmente se estressam. Sua auto-estima é baixa e frequentemente são auto-críticos e incapazes de tolerar erros. Os indivíduos com SA, principalmente adolescentes, são predispostos à depressão (uma alta porcentagem de adultos com SA deprimidos foi documentada). Comportamentos temperamentais e explosões de raiva são comuns na situação de estresse ou frustração. As crianças SA raramente parecem relaxadas e ficam facilmente superexcitadas quando as coisas não acontecem como a sua rígida concepção prevê. Para interagir com as pessoas e conseguir corresponder a solicitações cotidianas realizam enormes esforços.


Sugestões de programação


- Evitar as explosões proporcionando um alto nível de contenção. Preparar as crianças para as mudanças de rotina, para reduzir o estresse. As crianças SA frequentemente se tornam revoltadas, enraivecidas e assustadas frente a mudanças inesperadas e forçadas.


- Ensinar a criança como enfrentar o estresse para evitar as explosões. Ajudar a escrever uma lista de etapas concretas a seguir quando estão estressados (por exemplo: 1. Respirar fundo 3 vezes; 2. Contar os dedos da mão direita 3 vezes lentamente; 3. Procurar o professor de apoio, etc.). Incluir um comportamento ritual sugerido pela própria criança para se tranqüilizar. Escrever estas etapas em um cartão fixado na carteira da criança ou colocado no bolso para que possa estar sempre à mão.


- O tom da voz do professor deve ser o menos emocional possível. O professor deve ser calmo, previsível e prático nas interações com essas crianças ao mesmo tempo em que demonstra compreensão e paciência. Hans Asperger, o psiquiatra que dá o nome a esta síndrome, ressalta que “o professor que não compreende a necessidade de ensinar a estas crianças as coisas óbvias ficará impaciente e irritável”. Não deve se esperar que a criança SA perceba que está triste ou deprimida; da mesma forma que ela não percebe os sentimentos dos outros, não compreende os próprios. Elas frequentemente escondem a depressão e negam os sintomas.


- O professor deve estar atento às mudanças de comportamento que sugiram depressão, como um grau maior de desorganização, inatividade, isolamento, diminuição do limiar de estresse, fadiga crônica, choro e afirmação de suicídio, etc. Nesses casos não deve ser aceita a sua opinião de que está bem.


- Relatar os sintomas ao terapeuta da criança ou fazer uma consulta para que a criança possa ser avaliada com relação à depressão e receber o tratamento necessário. Uma vez que estas crianças são incapazes de avaliar as suas emoções e não conseguem procurar o conforto dos outros, é importante que a depressão seja diagnosticada rapidamente.


- É preciso que se saiba que os adolescentes com AS são particularmente predispostos à depressão. As habilidades sociais são altamente valorizadas na adolescência e os alunos com AS percebem a suas diferenças e tem dificuldade de formar relações pessoais normais. As tarefas acadêmicas se tornam mais abstratas e eles acham as lições mais complexas e difíceis. Em um caso, um professor observou que um adolescente com SA não chorava mais sobre as lições de Matemática e acreditou que a sua capacidade tivesse melhorado. Na realidade, a sua piora posterior em organização e produtividade em Matemática revelou que o adolescente havia se refugiado em seu mundo interior para fugir da Matemática.


- É de grande importância que os estudantes adolescentes com SA tenham uma pessoa do grupo de suporte bem identificada a quem possa recorrer uma vez ao dia. Essa pessoa pode avaliar como a criança está lidando com as situações e manter-se informada pelos professores.


- As crianças com SA devem receber assistência pedagógica assim que se notem dificuldades em determinada área.


- As crianças SA emocionalmente muito frágeis podem necessitar de uma classe especial altamente estruturada e de um programa acadêmico individualizado. Necessitam de um ambiente de aprendizado no qual se enxerguem como competentes e produtivos. Colocando-os no ambiente tradicional, eles não serão capazes de aprender os conceitos ou de completar as tarefas, acarretando um rebaixamento da auto-estima, aumentando a super-excitação e abrindo caminho para a depressão. (Em algumas situações pode ser designada uma ajuda individual ao invés de uma classe especial. Esta ajuda deve fornecer também suporte emocional, estrutural e um “feedback” consistente.)


O professor desempenha um papel vital para que a criança com SA aprenda a lidar com o mundo em volta dela. Uma vez que estas crianças frequentemente são incapazes de expressar os seus medos e suas ansiedades, cabe aos adultos lhes mostrar que vale a pena trocar o seu mundo interior de fantasias pelas incertezas do mundo exterior. Profissionais que trabalham com as crianças devem proporcionar a organização, estrutura e estabilidade da qual carecem. Usar estratégias criativas de aprendizado com estas crianças é fundamental não só pelos melhores resultados pedagógicos, mas por ajudá-los a se sentir menos alienados dos outros seres humanos e menos pressionados pelas exigências da vida cotidiana.

Referências bibliográficas

American Psychiatric Association.(1994. Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders(4th ed.) Washington, DC: Author.
Asperger, H. (1991). Autistic psychopathology in childhood. In U.Frith (Ed.), Autism and Asperger syndrome(pp.37-92). Cambridge,England: Cambridge University Press.
Dewey, M. (1991). Living with Asperger's syndrome. In U.Frith (Ed.),Autism and Asperger syndrome (pp. 184-206). Cambridge:, England: Cambridge Unviersity Press.
Everard, M.P. (1976,July).Mildly autistic young people and their problems. Paper presented at the International Symposium on Autism, St. Gallen, Switzerland.
Happe, F.G.E.(1991). The autobiographical writings of three Asperger syndrome adults: Problems of interpretation and implications for theory. In U.Frith (Ed.),Autism and
Asperger Syndrome (pp.207-242). Cambridge, England: Cambridge University Press.
Sacks, O. (1993, December 27). An anthropologist on Mars. The New Yorker, 106- 125.
Wing, L. (1981). Asperger's syndrome: A clinical account. Psychological Medicine 11, 115-129.
Wing, L. (l991). The relationship between Asperger's syndrome and Kanner's autism. In U. Frith (Ed.), Autism and Asperger syndrome (pp. 93-121). Cambridge, England: Cambridge University Press.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

do frio desespero da solidão


Aspie filosofando
Flavio Josefo[1]

Minha vida é uma miséria. Não posso viver em sociedade exceto naquilo que se esquematiza por normas à moda do direito positivo. É terrível. Um ostracismo que parece eu impus a mim mesmo, mas jamais pude encontrar outra forma.

É quase viver em silêncio. e tudo parece absurdo. O riso me tortura, e o humor é completamente intangível, ou despiciendo, não sei qual. Se chego a rir, eu mesmo, não raro me perguntam o motivo, quase sempre inapropriado.

E eu flerto com a morte... Quem sabe um dia eu tenha esse descanso... A vida sempre me tem sido tediosa ou enfadonha... Eu tentei dar significado ao absurdo, retirar de sentenças mal formadas e de pressupostos quase oníricos alguma relação ponderável, mas sempre é vão...

No fim me acostumei com a idéia de ser sempre eu sozinho com meus livros, meus jogos... meu vazio... e essa voz calada que não encontra o que lhe dê sentido, mas é a vida, é o que tenho, o que sou.

E aqui estou eu soletrando essas palavras não entendendo porque essas são diferentes daquelas outras que nunca me vêm quando preciso delas.

Decerto estas não são mais que uma extrapolação, uma marca, um registro de minha solidão. Talvez meus pensamentos desviaram-se de toda a sua utilidade terminando num fim por si só, num processo que se valida por si mesmo sem observar quaisquer metas ou finalidades.

Ocasionalmente me deparei com a falta de significação da existência. Tudo é tão deprimente e melancólico. Irrelevante e fútil. E o amor não é mais que um subproduto da evolução, mas eu estou de fora, jamais tendo podido amar, portanto esse conceito de nada me serve. E purgo o significado daquilo que a maior parte das pessoas que conheço considera dar o sentido último à vida. O amor vai se juntar àquelas outras abstrações quase oníricas que figuram na mente daquelas ditas pessoas normais.


[1] Flavio Josefo <orakio@ifrance.com> se apresenta como portador da Síndrome de Asperger (autismo). Nota enviada para a lista autismo@yahoogroups.com em 10/8/2001, às 00:12.

The other sister


Simples como amar (The other sister)


Garota mentalmente debilitada passa toda sua infância numa escola especial. Ao voltar para casa, espera ser aceita como uma pessoa normal mas enfrenta sérios confrontos com a mãe ao se apaixonar por um jovem.


Baixe aqui

Snow Cake


Um certo olhar (Snow Cake)
Alex é um inglês taciturno que está no Canadá para se encontrar com a mãe de seu falecido filho. No caminho, ele dá carona para Vivienne, jovem que vai visitar a mãe. Na viagem, um caminhão atinge o carro, matando Vivienne. Alex sai então à procura da mãe da jovem. Ao encontrá-la, descobre que ela é autista. Linda não tem qualquer reação ao saber da tragédia, mas Alex decide ficar com ela até o funeral. É quando ele conhece Maggie, a vizinha sexy com quem se envolve.
Baixe Aqui

The Black Balloon


The Black Balloon


Quando Thomas e sua família mudam-se para uma nova casa ele tem de começar em uma nova vida, nova escola, tudo que ele quer é que continue a normalidade de sua vida.Quando sua mãe fica grávida seu pai Simon o coloca para cuidar de seu irmão mais velho Charlie, que é autista. Thomas com a ajuda de sua nova namorada Jackie enfrenta o seu maior desafio de sua vida (cuidar de seu irmão). Charlie faz com que Thomas percorra uma viagem emocional que provoca frustrações e angústias pela situação de seu irmão, em uma história que é engraçada, chocante e, por fim, emocionante.


Baixe Aqui

Mozart an the Whale


Loucos de amor (Mozart an the Whale)


Comédia dramática inspirada na vida de dois portadores da síndrome de Asperger (uma forma de autismo). Donald é um bom sujeito, que trabalha como taxista, adora pássaros e tem habilidade especial com números. Comum aos portadores da síndrome, ele vive sempre um padrão, uma rotina. Mas isso muda quando ele conhece a complicada Isabelle, que frequenta o mesmo grupo de autistas de Donald.


Baixe aqui

terça-feira, 18 de agosto de 2009

autismo e telepatia


Telepatia existe!
José Antonio Campoy

Cientistas britânicos identificaram uma parte do cérebro que pode "ler" o cérebro dos outros. Isto é, adivinha o que os outros pensam e sentem. Os cientistas têm chegado a esta conclusão a partir do comportamento de crianças autistas e adultos. Os autistas (autismo é uma doença genética) podem ser pessoas muito inteligentes, mas com grande dificuldade em comunicar com os outros e uma falta de imaginação flexível. A diferença entre a inteligência e comportamento social é uma clara indicação de que existe uma parte especializada do cérebro que ocorre nesta capacidade.

Bem, para encontrar o centro da "mente leitura" cientistas do Instituto de Psiquiatria de Londres ter sido baseado em técnicas varredura e estudados casos de pessoas que sofreram danos cerebrais como resultados de um acidente vascular cerebral ou de embolia. Para os voluntários que participaram do estudo foram fornecidos histórias de engano, persuasão, a dupla intenção, várias formas e personagens animados para excitar reações em seu cérebro[1]. Dra. Francesca Happe, psicóloga e diretora de conhecimento do inquérito, disse em uma palestra por ocasião do congresso da Associação Britânica de Ciências da Universidade de Sheffield do seguinte modo:

"Nós temos descoberto regiões cerebrais específicas (lóbulos central e frontal) cujas atividades a aumentam somente quando a pessoa lê a mente do outro. Nós então utilizamos o mesmo procedimento, mas com indivíduos muito inteligentes que possuem uma forma de autismo chamado ‘Síndrome de Asperger’ e vimos que uma ativação semelhante, mas sem o aumento das atividades específicas do cérebro dessa mesma área ativada em pessoas normais."


Estes resultados foram confirmados por um estudo em pacientes que sofreram acidentes vasculares cerebrais que têm afetado o lado direito do cérebro. Pelo mesmo viés, Happe constatou que muitos dos seus doentes tinham uma visão social limitada enquanto compreendiam perfeitamente as histórias que não têm conteúdo social. Happe continuou, dizendo que existe uma clara vantagem evolutiva em ser capaz de ler a mente, "enganar, colaborar, comunicar e simpatizar", acrescentando:

"A nossa capacidade de ler mentes dos outros parece ser o resultado de circuitos cerebrais que evoluíram especificamente e que podem ser afetados seletivamente. A relação entre a leitura da mente e da consciência é uma área muito interessante para pesquisas futuras. Estamos lendo nossas mentes com o mesmo mecanismo que o dos outros? Se encontrarmos o local do cérebro que realiza este papel social pode estar no bom caminho para curar autismo".


COMO DESENVOLVER O PROCESSO TELEPÁTICO?

Telepatia ou transmissão de pensamento não é um fato universalmente reconhecido pela comunidade científica internacional. No entanto, sua existência foi comprovada cientificamente em laboratório pelo conhecido neurofisiologista e pesquisador Jacobo Grinberg Zilberbaum[2] há mais de dez anos.


Mantive inúmeras conversas com ele sobre o assunto durante as horas em que estávamos em Espanha. Mas, não pude ouvir os progressos alcançados nos últimos tempos, porque a última vez que o convidei ao departamento da Universidade de Madri para palestra sobre o assunto há cinco anos, descobri com surpresa que ele havia ido embora. E ainda falta a partir de hoje, mas os sinais da polícia, confuso, no início das investigações apontam para a sua morte quase certa. Não, evidentemente, é o único. Desde então, muitos cientistas que, seguindo essa linha, não têm dúvidas sobre isso. Há apenas um ano e meio, falando em Madrid com outro neurofisiologista americano Karl Pribram, "pai" do modelo holográfico do cérebro e um dos mais reputados cientistas do nosso século, eu expressa ceticismo, a este respeito. Tinha acabado de concluir uma investigação sobre o processo de familiarizar o cérebro com aquilo que nos rodeia e ofereceu para publicá-lo nesta revista. Guardei o texto na minha mesa, porque, apesar do seu interesse evidente, a sua dimensão impede-me de publicar e não me atrevo a cortar, sem risco de eliminar uma explicação rigorosa. Espero que eu possa fazer no futuro.

Mas esse sorriso encantador e duradouro personagem de cabelo branco do profeta que viaja o mundo e continua a trabalhar na Universidade de Stanford, em seus mais de 80 anos é, apesar da sua proposta ousada sobre o cérebro como um decodificador em que holográfico megauniverso viver em um homem muito prático, que não gosta de ousar na fronteira do considerados paranormais. Afinal, ele sabe o que aconteceu ao nosso amigo comum Raymond Moody, cuja inegável reputação como um psiquiatra foi colocado em questão, entre outros do seu livro "A vida depois da vida" e sua subseqüente investigação o "Teatro da Mente", em Choccolocco. Nesse momento ele teve de retratar publicamente declarações em seu próprio livro para ser contratado novamente como chefe de departamento em uma universidade.


Daí a importância de o atual descoberta do Dr. Francesca Happe. E não porque a sua contribuição é essencial hoje, mas, mais uma vez, reabre a polêmica sobre o potencial do cérebro. Ou talvez ela teria que falar sobre a mente? Relativamente, a mente e o cérebro são as mesmas? Obviamente, mas não tantos cientistas acreditam. Mas esse é um assunto de outro artigo. A minha intenção, em suma, não é senão o leitor dizer que estamos a falar de uma questão para ser resolvida. E existem muitos cientistas que têm postulado a existência de telepatia e desenvolveram as suas propostas teóricas a este respeito. Por isso, em nome de todos eles, fazer um breve resumo do que este processo é suposto ser. Hora e de investigação serão removidos ou razões. E talvez as pessoas gostam Jacobo Grinberg então ver seu trabalho reconhecido, embora seja postumamente.

TRANSMISSÃO DO PENSAMENTO


Os que afirmam a existência de telepatia acreditam que o cérebro humano é capaz de enviar e receber mensagens sob a forma de pensamento. E dizem também que a linguagem conceitual é telepática, e, portanto, todos os conteúdos conscientes, de acordo com suas características, são decodificados ou "traduzidos", de acordo com seu nível de compreensão e cultural. Eles explicaram ainda que todos os seres humanos sãos emitem ondas cerebrais eletromagnéticas de uma constante duração e freqüência a ser determinada, tais como impressões digitais de cada um. Isso não interfere no outro. Isto é, como se cada homem tinha o seu próprio canal como acontece com o rádio. Obviamente, que viajam através do éter que permeia todo o cosmos em uma maneira similar como um peixe se move através da água ou gás, através do ar. Uma vez lá, os pensamentos são transmitidos sob a forma de ondas circulares, como as que são produzidas quando uma pedra cai na água. Pensamentos serão recolhidos por outros, dependendo em grande medida da intensidade ou poder tanto do remetente como do receptor. Alguns acreditam, no entanto, que o pensamento pode ser captado em distâncias maiores. De um ponto de vista físico, as glândulas responsáveis pela transmissão e recepção de pensamentos seriam as glândulas pituitária e pineal. Até agora, o que é amplamente aceito por esses pesquisadores.


Outros cientistas dizem não acreditam. É necessário apenas que as suas crenças não dificultem o trabalho.


[1] Tal hipótese foi aprofundada pela pesquisa sobre neurônios-espelhos. v. Revista Scientific American Brasil – nº 55, dezembro/2006 <http://euautista.blogspot.com/2009/06/espelhos-quebrados.html>
[2] Para nossa surpresa, Jacobo foi um dos companheiros de Carlos Castaneda e autor de livros esotéricos, como Cantos de uma ignorância iluminada. Veja seu testemunho sobre CC em Los Testigos do Nagual: <http://marcelobolshawgomes.ohinodasemana.net/?p=428 > (N. do tradutor).

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Autism99 Internet Conference


OLIVER SACKS

AUTISMO99 - CONFERÊNCIA NA INTERNET

MICHELLE APPLEBY: Bem vindo à Conferência na Internet, Dr Sacks. O senhor não somente é muito conhecido por seus trabalhos no campo da Neurologia, mas também é conhecido do público por seus livros, dois dos quais tornaram-se filmes. “À Primeira Vista” e “Tempo de Despertar” (At First Sight and Awakenings). Para aqueles que talvez ainda não o conheçam, o senhor poderia se apresentar e contar um pouco de sua trajetória?

OLIVER SACKS: Bem, eu sou Oliver Sacks e nasci em Londres em 1933. Vim para os EUA em 1960 e aqui estou desde então. Acredito que fui levado para a Neurologia desde muito cedo em parte porque era a especialização de meus pais e também por ter encontrado aqueles pacientes que descrevi em “Tempo de Despertar”. Acho que sempre me interessei por condições extremas que desafiam a resistência e a humanidade das pessoas, obrigando-as, num certo sentido, a criar uma vida e uma identidade em bases incomuns. Este é certamente um dos motivos que me levou a encontrar pessoas com síndrome de Tourette e com Autismo, entre outras.

M. A. Sim, grande parte de seu trabalho tem sido descortinar o mistério. O quanto já caminhamos na compreensão das múltiplas e complexas interações que formam o cérebro humano?

OLIVER SACKS: Esta é uma pergunta importante. O cérebro e a mente humanos são inimaginavelmente complexos e até recentemente pouco se compreendia dos fenômenos além do nível dos reflexos. Agora estamos vendo coisas como a percepção visual – existem cerca de 40 ou 50 diferentes sistemas envolvidos na análise das cores, orientação, profundidade, movimento e todos os demais parâmetros da percepção visual.A imagem na retina é apenas o início de tudo. O que é tão difícil de entender é como estes 40 ou 50 sistemas diferentes são orquestrados em conjunto para nos proporcionar a nossa visão do mundo. Nós vemos o mundo colorido, em movimento, interessante, nossa atenção vai para todos os lados, e nós na verdade ignoramos a natureza da consciência, da atenção e de todos os processos cerebrais que possam estar envolvidos. Mas certamente muitos, muitos sistemas estão sincronizados em todo cérebro.

M. A. O autismo ainda é um distúrbio intrigante, com teorias variando desde diferenças na estrutura e no desenvolvimento do cérebro até teorias auto-imunes. Como o senhor vê os diferentes vieses das pesquisas? Será que descobrirão uma única causa ou o senhor acredita que o autismo se manifesta de várias formas e tem sub-grupos?

OLIVER SACKS : Bem, para começar, antes de 1960 o autismo não era visto como uma condição orgânica. E certamente Bettleheim e outros acreditaram que seja causado pelos pais, particularmente por um tipo de mãe fria, mãe geladeira. Penso que isto gerou um inconfortável sentimento de culpa em toda uma geração de pais. Foi apenas em 1960 que isto começou a mudar. Em parte, devido à epidemia alemã de sarampo nesta época, quando se descobriu que as crianças cujas mães haviam contraído a doença no primeiro semestre, poderiam desenvolver várias formas de lesões cerebrais, poderiam ser cegos, surdos, ou retardados ou autistas, ou tudo isso. E isto foi muito sugestivo de uma origem biológica para o autismo. Obviamente, quaisquer que sejam os determinantes biológicos, eles interagem com os determinantes humanos. A resposta da mãe ao seu filho, em parte estará baseada na maneira como a criança reage. A interação tem início no primeiro dia de vida. E talvez a interação com uma criança autista seja ruim ou peculiar desde o primeiro dia. Isto cerramento foi sugerido, ainda que o autismo seja geralmente identificado no segundo ano de vida. E há um crescente número de suspeitas neste sentido, de que alguma coisa acontece no primeiro ano de vida.

Desde o princípio, exatamente na mesma época, diferentes formas de manifestação do autismo foram descritas por Kanner e Asperger. Kanner descrevendo uma forma de autismo infantil em que aqueles afetados nunca atingiam uma linguagem muito boa e talvez permanecessem aprisionados em estereotipias... Interessante que tanto Kanner quanto Asperger, em países diferentes, fizeram descrições em alguns aspectos muito similares, ambos convergindo para a palavra autismo para descrever o isolamento. O termo autismo havia sido utilizado anteriormente em relação à esquizofrenia, como uma manifestação dela. Kanner não sugeriu que o autismo infantil seria uma esquizofrenia, mas havia o isolamento. E ambos sentiram que o isolamento não era causado por medo, defesa ou ausência, mas por alguma incapacidade de entender o sentimento do outro, de expressar o seu sentimento e de se posicionar num mundo de sentimentos.

Os pacientes descritos por Kanner nunca desenvolveram uma linguagem adequada e permaneceram deficientes. Na descrição de Asperger, linguagem e inteligência estavam presentes, mas num tipo de vida bem diferente. Mas ainda não se sabe se a forma de Kanner ou a de Asperger são condições separadas ou fazem parte de um contínuo. Eu tenho a impressão que o que chamamos de autismo é muito heterogêneo, tanto em sua origem como em sua evolução.

M. A: Parece haver uma crescente incidência de autismo em muitos países, especialmente nos últimos 10 anos. Qual a sua opinião sobre isto?

OLIVER SACKS: Eu não sei se é uma boa comparação, mas eu tomaria o suposto aumento da síndrome de Tourette como paralelo. Em 1970 ou final da década de 60, por exemplo, a síndrome de Tourette era considerada muito rara, com a prevalência de talvez uma em um milhão de pessoas. Depois de ver um paciente com Tourette, encontrei outro nas ruas de Nova York, e três no dia seguinte, e dois no outro. Fiquei imaginando se não seria eu que não enxergava estas pessoas. E pensei que se eu havia visto cinco pessoas em dois dias, deveria ser mais comum do que se pensava. Atualmente sabemos que a síndrome de Tourette é mil vezes mais comum e a prevalência é de uma em mil e não em um milhão de pessoas. A síndrome não se tornou mais comum, nós simplesmente nos tornamos mais conscientes dela. Eu suspeitaria de que algo assim esteja ocorrendo com o autismo. Talvez não fosse reconhecido e comentado. Há vinte e cinco anos, quando eu trabalhava num hospital público em Nova York, as pessoas com autismo não eram claramente diferenciadas das pessoas com retardo mental, esquizofrenia ou outras condições. Acho que a nossa percepção do que seja o autismo está mais clara.

M. A: O senhor recentemente trabalhou com muitos indivíduos autistas. Por que o senhor acredita que diferentes terapias, por exemplo, arte terapia ou musicoterapia produzem efeitos tão diferentes nas pessoas com autismo?

OLIVER SACKS: Primeiramente, as pessoas com autismo, apesar do autismo ou além dele, são tão diferentes como qualquer pessoa. A música talvez afete algumas pessoas mais do que outras. Algumas pessoas com autismo são privilegiadas visualmente, outras não. Algum tem habilidade matemática. Eu penso que precisamos encontrar a área que seja estimulante para eles. Acho que a terapia certa pode se tornar a ocupação certa para a pessoa com autismo, assim como para qualquer um de nós, dependendo no interesse e na habilidade individual. Por exemplo, eu estou numa fase bem botânica, estou usando uma camiseta do Kew Gardens que empregou dois ou três jovens autistas que possuem talento e amor por desenho botânico. Então para eles o desenho botânico era terapêutico, vocacional, prazeroso e tudo mais. Mas uma habilidade nem sempre corresponde a um sentimento. Eu sei que você entrevistou Temple Gradin e talvez ela mesma já tenha dito isso, mas Temple é muito musical, tem boa memória musical, um entendimento muito, muito bom da forma musical, acha a música intrigante, mas eu não sei se a música suscita sentimentos nela. Ela esteve aqui um Natal e disse que iria a um concerto. Um concerto de Bach com duas ou três partes. Ela questionava se Bach poderia ter composto um concerto em quatro ou cinco partes. Esta era uma questão interessante e eu perguntei “Você gostou do concerto?” e ela respondeu que considerava Bach muito engenhoso, mas não estava certa se tinha gostado. Por isto eu não estou certo se a música seria terapêutica para Temple. Talvez a música lhe seja um desafio, mas não fonte de prazer, enquanto estar com animais e em contato com sua maneira de sentir e pensar é vital para ela. E se torna tanto sua terapia quanto sua profissão.

M. A : O senhor acredita que existam vantagens para as pessoas com autismo e síndrome de Asperger em estarem afastados de suas emoções ?

OLIVER SACKS: Eu penso que algumas habilidades que podem existir nas síndromes autísticas podem se tornar vantagens. As pessoas autistas podem ter uma grande capacidade de concentração, o que podemos ver desde o início da infância. Elas tendem a desenvolver paixões intensas, às vezes chamadas obsessões, mas eu não acho que devamos usar uma palavra associada a uma patologia, como esta. Quer a paixão diga respeito à astronomia, quer Sherlock Holmes, que talvez fosse autista, tenha identificado cinzas de 145 tipos diferentes de charutos, esta habilidade de focalizar intensamente a atenção pode ser um ponto forte. Acho que algumas vezes, a relativa ausência de envolvimento emocional pode ser uma vantagem. Temple sente que pode ser uma boa examinadora de trabalhos científicos, já que não está sujeita a interesses pessoais, preconceitos ou parcialidades. Posso tentar responder sua pergunta tomando por referência um grande cientista, chamado Cavendish, que viveu no século XVIII. Cavendish pesou a Terra, descobriu a composição da água, foi o primeiro a fazer do hidrogênio uma figura importante. Mas ele era um homem incomum. Eu trouxe comigo uma biografia dele, daquela época (mais ou menos 1850). Eu vou ler um pedaço para você porque eu acho que soa como um exemplo de um gênio autista:

“ Ele não amava, ele não odiava, ele não tinha esperança, ele não tinha medo, ele não adorava como os outros fazem. Ele era quase sem paixão, tudo o que ia além do puro intelecto e que requeria exercícios da imaginação, afeto ou fé era desagradável para Cavendish. Um intelectual, pensante. Um par de olhos maravilhosamente agudos, observadores, e um par de mãos habilidosas, experimentando ou registrando é tudo o que eu percebo quando leio seu memorial. Seu cérebro parece não ter sido mais do que uma máquina calculadora, seus olhos fontes de visão e não fontes de lágrimas. Suas mãos, instrumentos de manipulação que nunca tremiam de emoção. Seu coração, apenas um órgão anatômico necessário para a circulação do sangue. Há mais nele para se admirar do que para acusar. (...) Ele foi um dos benfeitores da sua raça. Ele pacientemente ensinou e serviu a humanidade enquanto ela tremia com sua frieza e suas peculiaridades. Ele não foi um poeta, padre ou profeta. Apenas uma inteligência clara e fria emitindo luz branca que clareava tudo o que tocava, mas nada aquecia. Uma estrela de pelo menos segunda, se não de primeira grandeza, no firmamento intelectual.”

M. A : O senhor escreveu dois livros que incluem casos de pacientes autistas. “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu” e “Um antropólogo em Marte”. Nestes livros o senhor descreve o mundo deles em tantos detalhes que permite que o leitor o perceba melhor. O senhor acredita que as pessoas que são neurologicamente típicas deveriam estar mais conscientes das necessidades das pessoas com autismo e mudar suas atitudes em benefício deles?

OLIVER SACKS: Primeiramente, eu não estou bem certo do significado da palavra normal ou típico e acredito que existam muitas maneiras de ser , que podem ser completas e plenas ainda mesmo quando se é diferente. Este assunto é constantemente levantado pelas pessoas surdas, que gostam de distinguir surda com um “s” minúsculo, significando deficiente auditiva e não com um “S” maiúsculo, significando a pessoa surda que pertence a um grupo étnico, um grupo lingüístico e cultural, com suas próprias perspectiva, sensibilidade, comunidade, cultura, linguagem. Então as pessoas surdas, especialmente aquelas que sinalizam e são parte da comunidade dos surdos, não se percebem deficientes mas, diferentes. E também percebem que são plenos. Então eu acredito que as pessoas autistas, principalmente as talentosas, sentem da mesma maneira. A própria Temple já disse que “se eu pudesse estalar os dedos e deixar de ser autista, não o faria, porque ser autista é parte do que eu sou”. Agora, em relação a Cavendish, de quem eu falei, os seus contemporâneos precisaram adaptar-se a ele. Ele não suportava, por exemplo, ser olhado diretamente; não suportava que falassem com ele diretamente, se alguém lhe perguntava algo, ele se encolhia. Todos sabiam muito bem que era preciso manter uma conversa animada com uma outra pessoa e, se o assunto interessasse a Cavendish, ele espontaneamente participaria. Ele não suportava a sociedade, podia tolerar a interação com uma única pessoa. Precisamos ser sensíveis a todos, adaptarmo-nos a todos. Todas as relações humanas dizem respeito a uma mútua adaptação e não sei até que ponto isto é consciente. Acho que a empatia nos ensina a adaptar. Considero a adaptação muito importante Com as pessoas autistas, estamos, em certo sentido, lidando com uma outra espécie de ser humano. Eles podem ser muito inteligentes e muito sensíveis a seu modo, mas ainda assim de uma maneira diferente. Eu acho que nós precisamos nos adaptar em alguns aspectos, assim como eles. Diderot disse, há muito tempo atrás, no século 18, que o problema do cego não é a cegueira , mas não enxergar as pessoas. Em outras palavras, eles precisam se adaptar ao mundo vidente. Para as pessoas que são cegas para cores, o problema é aprender um vocabulário de cores que não significa nada para eles. Eles viveriam muito bem sem isto. Num certo sentido, as pessoas autistas precisam aprender um vocabulário do que é ser como nós. E acho que nós também precisamos aprender o vocabulário deles, e a melhor maneira de compreender as pessoas surdas é ter um vizinho surdo, um amigo surdo, um parente surdo. Assim sendo, a melhor maneira de aprender sobre o autismo é manter algum tipo de relacionamento com uma pessoa autista. Eu diria que acredito ter alguns colegas autistas, mas se eles pensam que eu sou um dos seus colegas autistas, ou não, eu não sei. Sim, estamos sempre nos adaptando. Felizmente.

M. A: Bem, Dr. Sacks, muito obrigada.


OLIVER SACKS: Eu que agradeço.

Perspectiva da criança


Como se sente uma pessoa com a Síndrome de Asperger

Eu posso estar concentrado nos meus pensamentos e não ouvir alguém chamar ou falar comigo

Um determinado sabor pode ser ótimo para todo mundo, mas me causar vômitos.


O mesmo acontece com alguns cheiros. O melhor perfume do mundo pode me sufocar. O cheiro do tabaco pode ser completamente insuportável.


Às vezes os ruídos são ensurdecedores para mim e eu tenho de tapar os ouvidos ou fugir. Eu tenho um interesse especial do qual falo constantemente. Se for por trens, então gosto de tirar fotografias deles, desenhá-los e até reproduzir os barulhos. Fico muito excitado quando abordo o assunto e não entendo porque é que os que me rodeiam não se interessam pelo tema.

Eu tenho determinados rituais ou "manias", que tenho de seguir escrupulosamente, para ficar calmo e relaxado. Mas às vezes fico frustrado pois ocupam muito tempo. Às vezes fico assustado se vejo muitas pessoas à minha volta ou alguém que não conheço. Nem sequer quero olhar para eles ou falar com eles, quero ser invisível. Tenho dificuldade em pedir coisas nas lojas ou em falar com o empregado do restaurante. Fico muito envergonhado e um pouco assustado.

Eu não consigo perceber o que você está sentindo quando te olho. Tenho dificuldade em perceber a linguagem corporal a não ser que você esteja chorando, rindo ou gritando muito alto.
A maior parte das vezes não gosto que me toquem. Prefiro que não me dêem abraços mas adoro que alguém conhecido me coce as costas. Não gosto muito de cortar e lavar o cabelo e detesto que me cortem as unhas.

Não sou nenhum equilibrista e até andar a pé me cansa.

Não entendo as palavras com duplo sentido. Também não percebo as anedotas.

Eu acredito piamente no que me dizem. Se me dizem que as pessoas morrem se não bebem água posso levar tão a sério que passarei a beber água a toda a hora. Isso fica na minha memória e passa a me preocupar. Não me passa pela cabeça que uma pessoa sem água pode sobreviver alguns dias ou que a água necessária ao corpo pode vir de outras fontes (leite, sopa, etc)

Tenho consciência que sou diferente, que não consigo fazer com facilidade o que os outros fazem e isso me deixa nervoso e frustrado. Mas não percebo a origem da minha diferença ou porque é que os outros me gozam.

Eu gosto de conhecer pessoas novas e falar-lhes, mas não sei como. Elas me assustam. Levo algum tempo para ficar à vontade com alguém.

Não percebo porque é que o meu professor diz que eu me porto mal se eu me esforço por fazer o meu trabalho. Não percebo muitas coisas e não me explicam corretamente. Mas se me sentam no fundo da sala ainda é pior porque ou fico sonhando acordado ou me distraio facilmente.

Não consigo ver as horas com facilidade, dar laços, descascar uma fruta, dar um chute decente numa bola, andar de bicicleta, usar o compasso ou a régua.

Algumas roupas são tão desconfortáveis que não consigo vesti-las.

Prefiro ficar em casa jogando Playstation ou ver televisão do que ir ao parque.

Não me importo de brincar sozinho no recreio.

.............................................................................................................................................
Associação Portuguesa do Síndrome de Asperger - http://www.apsa.org.pt/
Distribuição Associação Mão Amiga (Rio - RJ) – http://www.maoamiga.org/

JERRY NEWPORT



Aprenda com os verdadeiros especialistas
Os que estão no espectro

Tradução livre da Associação Mão Amiga

Jerry é um estudioso. Ele é capaz de executar cálculos matemáticos extremamente difíceis; com sete anos de idade ele calculava raiz quadrada, “de cabeça”. É conhecido internacionalmente por seus livros, seu humor, suas entrevistas na TV e outros compromissos onde fala. Jerry e sua esposa são o assunto do filme “Mozart e a baleia”, baseado no belo livro escrito pelo casal portador da síndrome de Asperger.

Entrevista com Jerry

- Qual a sua idade?
Completarei 60 anos no dia 19/8/2008, o que me faz dois anos mais moço que o Bill Clinton.

- Com que idade você começou a falar? Teve algum diagnóstico quando criança?
Minha família tinha um corvo de estimação, Blackey, cuja gaiola ficava pendurada perto do meu quarto. Eu disse minha primeira palavra, “hello”, entre um e dois anos, tendo aprendido com o corvo. Eu não tinha pronúncia e minha família costuma brincar a respeito sobre quem me ensinou a falar. Não tive nenhum diagnóstico, mas numa ficha escolar antiga há um comentário “ele é uma criança brilhante, no seu próprio mundo” (1ª série), e “não age de acordo com o seu potencial, é muito sonhador” (6ª série).

- Com que idade você ficou interessado em fazer amigos e quando teve o seu primeiro amigo?
Eu tive um amigo no jardim-de-infância.

- Como as pessoas poderiam ajudá-lo a se “enturmar” com outras crianças, quando pequeno?
Eu precisava de ajuda para portar-me bem, socialmente. Por exemplo, fui visitar um amigo e não havia ninguém em casa; entrei, usei o banheiro e, por isto, arranjei encrenca, sem entender o que havia feito de errado. Eu costumava dizer coisas que pensava engraçadas, sem me preocupar com a sensibilidade das outras pessoas.

- O que teria lhe ajudado a se sentir mais confortável, socialmente?
Eu precisava aprender maneiras de encontrar-me com moças e como relacionar-me com elas. Não tinha a menor idéia de como proceder e tinha medo de rejeição. Quando, finalmente tive coragem para marcar um encontro, estava tão obcecado por “conquistas” que não tive nem paciência nem verdadeira vontade de manter a moça interessada em mim. Eu precisava de muitos conselhos sobre comportamento social.

- Você era ligado a seus irmãos, quando criança? E agora?
Na maior parte do tempo eles pareciam tolerar-me; eram, também, muito protetores. Penso que agora somos mais ligados, mas eles moram longe.

- Você teve , ou tem, algum problema em olhar os outros “nos olhos”?
Sim, tive muitas dificuldades com isso e mesmo agora, às vezes, é difícil.

- Pode explicar por que é difícil?
É difícil eu me concentrar numa conversa, olhando nos olhos da outra pessoa.

- Você acha que se deve ensinar a “olhar no olho”?
Acho que se dá muita importância a isso. Eu, normalmente, olho a testa das pessoas e não os seus olhos.

- Quantos animais de estimação você têm?
Agora temos treze.

- De que modo você acha que os animais de estimação contribuem para a sua vida? Se os pais querem dar um ao filho, o que você recomendaria?
Eles são uma distração para se ver e ouvir. O “poodle” é o que fica mais tempo conosco. É muito leal e seu amor é incondicional. Adora dar e receber atenção. Penso que cães, gatos e “porquinhos - da Índia” são os melhores para as crianças.

- Sei que você tem habilidades de conhecimento. Poderia explicá-las e dizer sobre como contribuíram para a sua vida?
Minha habilidade com números é uma benção. Desde os sete anos fui capaz de fazer o que quisesse com os números. Isto fez com que as pessoas me olhassem de forma diferente, mas também parece ter levado as pessoas a pensar que isto compensaria tudo que eu não pudesse fazer.

- Além do seu notável talento com números, que outras fascinações e fixações você tem?
Eu gosto de música, humor, esportes, política, animais, genealogia e da vida ao ar livre.

- Alguma vez você experimentou vitaminas, dietas ou outras coisas que alguns pensam poder ajudar às pessoas do espectro?
Sim. Eu acho que a melhor coisa para mim são os exercícios físicos diários. Eu corro, e isso ajuda a me acalmar e a ter mais atenção.

- Há alguma coisa que os pais possam fazer para prevenir que a sua criança entre em depressão? Como podem eles reconhecer os sintomas iniciais do autismo?
Existem bons trabalhos escritos sobre o assunto e incluem sintomas a serem observados. Os pais não devem permitir que nos tornemos totalmente ligados ao computador. Devem fazer com que participemos de um clube ou de uma atividade do interesse comum de outras crianças da mesma idade.

- Você está empregado? Qual o seu trabalho? O que fez no passado?
Eu escrevo e dirijo um táxi em tempo parcial. Já fiz trabalho contábil, trabalhei com impostos, livraria, caixa e já fui professor auxiliar. Há um novo centro de convenções abrindo na cidade. Estou ansioso por este novo potencial de oportunidade, pois me sinto bem trabalhando em convenções.

- Deseja mencionar mais alguma conquista?
Fui membro do diretório central do Partido Democrata de San Diego .Foi resultado do meu trabalho voluntário em campanhas, participação em vários sindicatos e reformas que consegui na indústria local, de táxis. Sou orgulhoso por haver ajudado a fundar e dirigir a “AGUA”, o grupo de apoio onde encontrei minha esposa Mary, em 1993.

- Você é casado? Caso afirmativo, havia pensado nessa possibilidade? E sua esposa, está no espectro?
Fui casado, divorciei-me e casei pela segunda vez , com Mary, em 1994. Eu havia desistido desta possibilidade até encontrar Mary. Ela também está no espectro e tem dois filhos adultos de casamento anterior; eles mostram sintomas, mas não têm diagnóstico. Mary é avó de um menino e de uma menina.

- Pessoas do espectro são conhecidas pela rigidez de suas rotinas. Você acha que sendo casado com outro “aspie” fez com que se tornasse mais flexível?
Sim. Você tem que compreender que não poderá agir sempre da maneira como agia quando era sozinho.

- Se V. pudesse mudar algo sobre os neurotípicos, o que faria?
Haveria menor número deles. Com seriedade, eles não deveriam ter medo de ver autismo em algumas coisas, como fazem normalmente.

- Qual o conselho aos pais?
Aceitem o fato de que existem muitas maneiras de ser feliz. Sua criança poderá achar uma maneira que você nunca teria querido para si mesmo.

- Qual o conselho para os professores?
Não abaixe os seus padrões por causa de um diagnóstico. Não dê notas altas para elevar a auto-estima.

Ensine da melhor maneira que for capaz.
----

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Cognição Autista


A MENTE AUTÍSTICA

Gary Walesky(Outubro de 1997)

Tradução de Mônica Accioly



A mente de um típico indivíduo de alto desempenho, possui uma inteligência incrível e é extremamente ávida por conhecimento. Como uma esponja absorvendo água, a mente rapidamente absorve e processa qualquer informação recebida. O indivíduo atravessa a vida absorvendo todas as informações a que é exposto, acumulando experiências e senso comum. A mente de um recém nascido é como uma folha em branco. Desde o primeiro dia de vida, a mente da criança recolhe informações e um texto começa a ser escrito nesta folha em branco. O cérebro começa a crescer e a criança adquire conhecimento a passos largos. A criança recolhe informações através dos cinco sentidos, desde que todos estejam funcionando. Reconhece sua mãe , seu pai e outros membros da família. Ela se familiariza com o ambiente e começa a aprender sobre o mundo lá fora. Conforme o tempo passa, a criança começa a reconhecer o nome das pessoas mais próximas. Aprende a diferença entre sim e não. E o progresso continua, constante.A criança cresce e também o cérebro. As crianças estão acordadas e totalmente alertas, adquirem conhecimento a uma incrível velocidade Rapidamente aprendem a falar, ler, escrever. Aprendem através da brincadeira e progridem da brincadeira solitária(na qual brincam sozinhos), para a brincadeira paralela (na qual brincam sozinhos ao lado de outras crianças), para a brincadeira interativa ( na qual compartilham suas atividades). Aprendem com seus pais, na escola, com a socialização, com a TV, através das atividades prazerosas e com a sociedade em geral. As crianças fazem amizades com outras da mesma idade, adquirindo experiências sociais. Elas aprendem o que precisam aprender e até coisas que os adultos prefeririam que não aprendessem. É difícil enganar ou esconder alguma coisa de uma criança. Podem ser crianças mas não são bobas, e uma mentira na última hora nem sempre funciona! As crianças são curiosas, constantemente procurando mais informações, freqüentemente enlouquecendo os adultos com suas milhões de perguntas! Se guiadas com cuidado, desenvolvem senso moral.


As crianças crescem e se tornam adolescentes, seus conhecimentos continuam a aumentar. Aprendem sobre o trabalho, a lidar com dinheiro e a ganhá-lo. Começam a namorar e experimentar relações. Experimentam muitas coisas – boas e más. No entanto muitas coisas são aprendidas por tentativa e erro. A fase da rebeldia é comum para a maioria dos adolescentes, e é simplesmente uma forma de experimentação. Os pais devem ter paciência.O ínicio dos vinte anos é muito variado, especialmente na geração de hoje. Cada pessoa amadurece num ritmo próprio, então não há regras. Muitos jovens adultos são tão inteligentes como os adultos mais velhos. Mas outros tendem a permanecer com seus comportamentos e atitudes dos tempos da adolescência. O que gera um “gap” entre inteligência e maturidade, mas eventualmente o “gap” desaparece. Acumulando todas as informações através da sua vida, o indivíduo chega à idade adulta. Já adquiriu toda a inteligência e bom senso necessários para se sustentarem, seguir uma carreira, e levar uma vida social ativa. Agora (espera-se), possui um total entendimento dos valores morais. Quando estável financeiramente, pode casar-se e formar sua família, se assim o quiser. Entretanto, ninguém jamais para de aprender.

A título de dramatização, vou comparar o cérebro à ocupação de uma sala. Um cérebro de alto desempenho é uma sala grande. Dentro da sala, há um funcionário muito ativo e cheio de energia e muitos armários. Fora da sala, há uma pilha enorme de papéis (as informações). O funcionário pegará uma pilha de papéis, rapidamente os classificará, irá para o armário certo, e arrumará os papéis na pasta apropriada. Algumas vezes, devido a enorme quantidade de papéis, o funcionário pode levar mais tempo nesta separação e classificação, mas isso faz parte do trabalho. Ele trabalha a uma velocidade inacreditável e organiza muito bem a sala.Num indivíduo com o desenvolvimento comprometido, o cérebro trabalha de maneira similar, mas em escala mais simples. O cérebro terá uma capacidade limitada para o aprendizado, dependendo do grau de deficiência. As informações também se processarão em velocidade menor. O indivíduo adquirirá conhecimento e bom senso, mas não tanto quanto o indivíduo de alto desempenho. Consequentemente seu estilo de vida e seu bom senso serão mais elementares.A sala também é menor e contém apenas poucos armários. O funcionário é lento e sem energia. Ele trabalha devagar e, como não há muito espaço, só pode guardar um número pequeno de papéis. A maioria das informações é abandonada e o que entra é guardado de maneira aleatória. O cérebro de um indivíduo com TID (transtorno invasivo do desenvolvimento) é idêntico ao de um típico indivíduo de alto funcionamento. Entretanto, este transtorno forma uma obstrução entre o cérebro e os sentidos, impedindo o cérebro de absorver as informações que, de outra forma, ele seria capaz de processar. As poucas informações que o cérebro consegue registrar serão processadas de forma clara, incrivelmente precisa e detalhada. Como o cérebro de uma criança com TID só consegue retirar partes das informações que chegam, o mundo externo pode lhe parece um borrão. Nos lugares familiares, a criança pode aprender as coisas básicas, reconhecer sua casa e sua família. Como as informações adquiridas geralmente se limitam a sua casa, a criança fica restrita ao que aprende aí. Por isto, ela fica fascinada com objetos domésticos comuns que lhe chamam a atenção. Normalmente são objetos que giram, balançam ou acendem: ventiladores, luzes, CD/fitas/discos , motores e outros. Depois que a criança se familiariza e fascina com estes ítens, ela vai perceber e procurar por eles fora de casa. Este indivíduo , na infância, tenderá a desenvolver um interesse obssessivo por estes objetos.

Todas as pessoas precisam de diversão, especialmente as crianças. Como a criança com TID não tem muitas informações que possam lhe alegrar a vida, ela mentalmenta vai criar as suas. A criança com TID vai se divertir com sua própria imaginação. Esta imaginação aumenta e se torna mais complexa à medida que a criança cresce e a vida se torna mais complicada.A fantasia se torna a distração preferida da criança – como uma fuga do estresse e do tédio, já que ela não conhece outras maneiras de ocupar o seu tempo.As pessoas com TID são conhecidas por possuirem uma memória incrível. Isto talvez se deva a uma pequena quantidade de informções para um cérebro capaz. Numa típica pessoa de alto funcionamento, o cérebro tem que processar uma grande quantidade de informações. No entanto, o cérebo de uma pessoa com TID tem uma tarefa muito mais fácil. Como a quantidade de informações para se trabalhar é pequena, o cérebro pode processá-las detalhadamente.

A vida se torna rotineira para o indivíduo com TID, e qualquer coisa nova ou diferente pode parecer estranha e assustadora. O que é conhecido é a zona segura, e a pessoa tende a relutar a ultrapassar estas fronteiras.

A criança pode se sentir inconfortável em estabelecer relações e manter amizades. O indivíduo pode se intimidar facilmente ante a responsabilidade de interagir com as pessoas. Assim também a criança, que precisa de tempo e espaço em sua zona de segurança. Se os amigos se tornam agressivos ou insistem em passar um tempo maior juntos, podem afastá-la.

A escola pode ser difícil para a criança, se ela não receber a ajuda necessária. Como é muito sensível, pode ficar inconfortável com o ambiente e sentir-se intimidada pelos professores. A pressão dos colegas pode se tornar uma situação muito difícil, se não for tratada adequadamente. As crianças logo notam que algumas pessoas têm certas características um tanto estranhas, e tendem a ridicularizá-las. Como as crianças com TID possuem características excêntricas, a implicância e o deboche podem ser um problema sério para elas.

Trabalhar pode ser um enorme problema para o jovem com TID. O indivíduo pode se sentir inconfortável no ambiente não familiar, faltando-lhe assim confiança e motivação adequadas para as tarefas. Patrões quase sempre são autoritários. Como estão pagando os funcionários para trabalhar, espera que eles produzam. Patrões são intolerantes no que se refere a isso e não exitarão em expressar seu descontentamento de maneira ríspida. Esta pode ser uma situação crítica , se o funcionário tiver TID. Como é sensível, ficará aterrorizado pelos supervisores. Um jovem com TID pode se tornar apreensivo quanto ao trabalho.

Uma criança ou um jovem com TID pode parecer preguiçoso, mas esta aparente falta de motivação resulta de falta de confiança. A criança com TID percebe que está atrás das outras crianças de sua idade, e por isto lhe falta confiança e auto-estima. Ela simplesmente não quer estar numa situação dificil de lidar, tem medo de ficar paralizada e não conseguir retornar. Responsabilidades podem se tornar experiências intimidantes, a ponto de fazerem a pessoa desistir. Se os cuidadores são impacientes e agressivos com o indivíduo, as coisas podem piorar. Paciência, reforço positivo e orientação são essenciais para que o indivíduo se motive.Por causa do bloqueio na comunicação entre o cérebro e os sentidos, a pessoa com TID não amadurece adquirindo conhecimento na mesma proporção que as pessoas típicas. Desta forma, seu bom senso é , em muitos aspectos, menor que o das outras pessoas. Se a pessoa cresceu vivendo sozinha, protegida, lhe faltará muitas experiências de vida e habilidades sociais. Esta pessoa pode lidar com certas questões de maneira errada. Parecerá ingênua e tola, o que freqüentemente atrapalha a vida em sociedade.A sala, neste caso, é a mesma daquela que descreve o cérebro de um típico indivíduo de alto desempenho. A sala é do mesmo tamanho, tem a mesma quantidade de armários, e o funcionário também é cheio de energia. No entanto, por alguma razão, a porta da sala está emperrada e o funcionário não consegue abri-la inteiramente. O funcionário apanha pela abertura da porta apenas o que está ao seu alcance, mas rapida e eficientemente processa as informações. Como não há muitos arquivos, ele cria sub-arquivos, categorizando extensamente as informações.Às vezes pode existir um arquivo para cada papel! Como a informação é arquivada tão precisamente, pode ser rapidamente encontrada. Devido ao pequeno volume de papéis para arquivar, este funcionário competente se entedia e decide criar novas informações a partir daquelas já arquivadas. Este funcionário continuará a olhar os arquivos , duplicando-os e arquivando-os novamente. Este trabalho interno chama-se imaginação. Como existem poucos papéis para arquivar, esta sala não está tão preparada para produzir como a de um típico indivíduo de alto desempenho. Para resolver este problema precisamos de um grupo de pessoas que ajude o funcionário, passando mais papéis pela abertura da porta. Isto pode ser feito, e o processo é chamado de TERAPIA. As emoções de um indivíduo com TID são extremas, se comparadas com uma pessoa típica de alto desempenho. Emoções fortes, como raiva e medo, podem ser traumáticas para a pessoa com TID. Crises de birra são o resultado da raiva fora de controle e podem ser disparadas por qualquer tipo de incômodo. O indivíduo pode se incomodar facilmente com pequenas coisas, como certos sons. O medo comum pode se potencializar a ponto de tornar o indivíduo paranóico. Os indivíduos com TID são geralmente mais tímidos, nervosos, e mais facilmente excitáveis do que as pessoas típicas. Ruídos altos ou súbitos assustam e/ou irritam facilmente a pessoa com TID. Depressão é um problema comum e pode começar sem razão aparente. Ainda não temos todas as respostas de porquê isto acontece. Mas é evidente que estas emoções extremas estão diretamente ligadas ao distúrbio.


O comportamento instável freqüentemente resulta de uma falta de experiência social. Se o indivíduo através de sua vida, não conviveu muito com outras pessoas, ele acaba não conseguindo entender o comportamento humano. Ele pode se ofender com um comentário por não saber interpretá-lo, e se colocar na defensiva. Pode não entender uma brincadeira, já que não é capaz de distinguir o que é fato do que é humor. Tende a reagir exageradamente por questões superficiais, devido a sua inabilidade para discernir adequadamente. Em geral a sensibilidade e a irritabilidade são resultado de uma inabilidade para julgar as situações, e falta de bom senso pora lidar com elas. Se o indivíduo não foi exposto ao mundo lá fora, ele pode ficar extremamente intimidado e até aterrorizado por algumas situações ( por exemplo: ser questionado por um policial; ser advertido pelo chefe, no trabalho; aprender uma tarefa nova; se ver envolvido numa discussão). As pessoas com TID confiam facilmente, o que é muito perigoso. Elas precisam entender que vivemos todos num mundo no qual precisamos manter os olhos bem abertos.

A solução mais comumente usada por uma pessoa com TID é se retrair. Se ela estiver tendo dificuldade na escola, vai parar de se esforçar. Se etiver inconfortável num emprego, vai pedir demissão ou deliberadamente fazer algo para obtê-la. Se a pessoa ficar estressada ou entediada, pode começar a “sonhar acordada” para fugir da realidade. Drogas e álcool são um método comum de escape para muitas pessoas. No entanto, indivíduos com TID estão especialmente suscetíveis a ele (método). Esta é uma situação que não deve ser subestimada, especialmente nos jovens.

Como já foi dito, fantasiar é um dos passatempos preferidos dos indivíduos com TID , especialmente se vivem isolados. Este passatempo começa muito cedo, quando a criança cria um mundo imaginário para se distrair. À medida que cresce e as experiências a deixam estressadas, ela escapa para o seu agradável mundo de fantasia. A criança adquire a habilidade de se “desligar” do estresse e do tédio do mundo real, e vive a vida que ela preferiria ter. A criança com TID cria com sua imaginação complexa, um mundo de fantasia extraordinário. Este mundo é brilhante, colorido, feliz e muito divertido. É um mundo perfeito, exatamente como a criança quer, oposto ao mundo real que tantas vezes é entediante e estressante. As fantasias satisfazem seus desejos e se não forem trabalhadas, podem se tornar um hábito difícil de ser controlado. Ao se lidar com ele, a questão não deve ser eliminar a fantasia, mas obter controle sobre ela. Todas as pessoas fantasiam um pouco, e freqüentemente o “desligamento” é um pausa necessária. Entretanto, o indivíduo com TID precisa aprender a priorizar. Ele pode aprender a lidar primeiramente com os assuntos importantes, e depois reservar um tempo para “sonhar acordado”, ou para outras atividades de lazer.

Um indivíduo com TID tende a viver metodicamente e ter rituais. Eu acredito na possibilidade de haver uma certa área cerebral que percebe a desorganização causada pelo distúrbio, e tenta uma acomodação. A pessoa com TID pode inconscientemente estar tentando impor regras pessoais, a fim de funcionar no dia-a-dia. Pode ficar confusa sem os rituais . Então, talvez seja útil e necessário estabelecer rituais para ajudar o indivíduo. Se planejados cuidadosamente, os rituais podem ser de grande ajuda para a pessoa com TID. Existem certas responsabilidades que são prioritárias e não podem ser evitadas, como escola e trabalho. A pessoa não deve fazer outra coisa antes de cumprir estas obrigações. A pessoa com TID acha que não pode desobedecer certos rituais (por exemplo: um programa na TV; uma certa comida numa certa hora; um passatempo pessoal; a hora do banheiro) , mas com a orientação adequada, é possível estabelecer um ritual que privilegie os assuntos importantes, escola ou trabalho, sem esquecer do lazer. É muito importante estabelecer um hábito que simplifique e organize a vida, especialmente para a pessoa com TID.

Eu, o autor, tenho um transtorno invasivo do desenvolvimento. Recebi o diagnóstico de Síndrome de Asperger há seis anos, quando estava na casa dos vinte anos. TID não era bem compreeendido quando eu era criança, então diziam que eu apenas precisava de mais disciplina. Cresci da maneira mais difícil , tratado como uma pessoa típica de quem esperavam um comportamento típico. Passei por muitos problemas na escola; fui punido e humilhado por professores; continuamente ridicularizado pelos meus colegas. Quando jovem, também passei por várias dificuldades em empregos, de maneira que evitei trabalhar enquanto morei com meus pais. Ssentia-me inconfortável em certos empregos e não conseguia mantê-los. Atualmente, o distúrbio por vezes ainda me deixa frustrado. Complicou minha vida e diminuiu minha auto estima. Mas , por outro lado, sinto que de certa maneira o meu “caminho áspero” me fortaleceu e agora trabalho para amenizar o caminho para as outras pessoas com TID.

Honestamente, eu não sei como é ser como a maioria das pessoas que não têm TID. Por outro lado, as pessoas típicas de alto desempenho não sabem como é ter este distúrbio. A experiência talvez seja bem parecida, mas também muito diferente. Quando olho a vida das pessoas típicas, vejo que é muito diferente da minha. Vejo as crianças e os jovens rapidamente tomando decisões sensatas, e me lembro de como eu era diferente naquela idade (e que diferença!). A maioria das pessoas já viveu um maior número de experiências e tenho a certeza de que suas vidas são muito mais interessantes e cheias de aventuras do que a minha. Vejo que as pessoas se divertem com algumas experiências que eu gostaria de ter, e espero encontrar uma maneira de incrementar a minha vida. Também percebo que a maioria das pessoas lida com as situações de forma muito diferente . Suas emoções parecem não causar o impacto que as minhas emoções têm sobre mim. Fico pensando se elas são realmente mais profundas ou se eu não sou tão forte como os outros, ou se existe uma técnica ou um truque que eu preciso saber para lidar adequadamente com algumas situações. Tenho certeza que as pessoas não sonham acordadas tanto quanto eu. E parecem ter a motivação que eu apenas recentemente adquiri. Já encontrei pessoas que têm uma vida altamente agitada, e sempre me pergunto como elas conseguem. O que dá tanta confiança e como é sentir-se tão seguro? Conheci muitas pessoas que, ao contrário de mim, moraram em diferentes lugares, e me pergunto como deve ser possuir esta habilidade social. Na verdade, às vezes eu invejo as outras pessoas. O que será que elas pensam quando vêem pessoas como eu? Será que elas ficam curiosas? Minha missão é dividir minha experiência para que as pessoas compreendam melhor como é o distúrbio. Espero que isto seja útil e ajude as pessoas com TID.

Eu realmente acredito que as pessoas com TID podem ser treinadas e orientadas para funcionar, até certo ponto, como as pessoas típicas. Elas talvez precisem de regras adicionais para pensar e agir, incluindo dramatizações, estabelecimento de rituais e prioridades, simplificações. Não há muitas técnicas até agora, mas estamos desenvolvendo e experimentando algumas. Se já chegamos até aqui, imagine o que ainda conseguiremos atingir!

O mundo cheio de responsabilidades pode ser intimidante e confuso para o jovem com TID. Para guiar a pessoa através da vida, simplifique os desafios. Há um processo simples que está se tornando prática comum : um fichário é montado para que a criança saiba a rotina diária (vestir, tomar banho, comer com bons modos). Este fichário consiste em figuras acompanhadas de frases simples para que a criança compreenda sem dificuldade. Uma outra técnica para facilitar a vida é a dramatização, que pode ajudar a criança a motivar-se. Por exemplo, cria-se um jogo a apartir das trarefas domésticas para que a criança sinta-se motivada a participar. Desta forma o trabalho transforma-se em prazer, e é mais fácil cooperar. O trabalho também se torna mais prazeroso se incorporar uma dose de imaginação. E aí a fantasia pode ser uma vantagem! Quando eu era criança, eu fantasiava enquanto realizava minhas tarefas domésticas, e isto realmente me deixava motivado.

A habilidade simples de organização pode ajudar a planejar e simplificar a vida de um jovem com TID. O objetivo é ensinar o indivíduo a planejar a rotina diária, priorizando certas atividades. Num dia normal, ele deveria: (1) realizar os rituais da manhã; (2) ir para a escola/trabalho; (3) cumprir outras responsabilidades (dever de casa, tarefas domésticas, coisas pessoais); (4) horário de lazer, quando ele poderá fazer o que quiser – inclusive sonhar acordado. As prioridades, depois de um período, se tornarão bons hábitos. Isto é possível se for praticado constantemente, e , depois de estabelecida, será uma rotina da qual o indivíduo não mais se desviará. Como cada pessoa é diferente, a maneira de se estabelecer a nova rotina, se gradualmente ou não, vai depender de cada um. Estas são idéias, não regras, mas sugestões que podem ser úteis. Um importante fator quando se convive com uma pessoa com TID é paciência, porque a vida com ela é cheia de desafios e muitas vezes as pessoas em volta sentem-se contra a parede. Entretanto, é importante não perder a paciência. Está provado que agressão só piora a situação, é como tentar apagar um incêndio com fogo. A agressividade vai assustar e irritar a pessoa, fazer com que ela revide, diminur sua confiança e auto estima. Se um membro da família ou um cuidador atuar negativamente ou com agressividade para com a pessoa com TID, poderá haver consequüências a longo prazo. Ela poderá desenvolver um ressentimento contra o agressor, o que interferirá no seu amadurecimento. Se você é um cuidador, coloque-se na posição da criança. Analise como você lida com ela e tente colocar-se no lugar dela. Considere como você gostaria de ser tratado e, talvez isto seja a idéia mais real da maneira adequada de tratar esta criança. E o que é mais importante: nunca dê prioridade a você, à sua posição, ao seu orgulho. O que deve ser sempre prioritário no relacionamento familiar é ter paciência, empatia e integridade.

Em resumo, o cérebro de uma pessoa típica tem uma capacidade enorme e está sempre absorvendo conhecimento a passos rapidos. O cérebro de uma pessoa desafiada pelo desenvolvimento tem uma capacidade menor e absorve menos informações, de maneira lenta. O cérebro de uma pessoa com TID é o mesmo de uma pessoa típica, mas o distúrbio forma um bloqueio, limitando a absorção de informações. No entanto, o cérebro está altamente ativo. As emoções da pessoa com TID , comparadas com as da pessoa típica, são exageradas. Fantasiar é um hábito que se desenvolve como forma de distração e é também usado para escapar do estresse e do tédio. Os rituais podem se transformar em regras, e se planejados adequadamente, podem ser vantajosos. Eu, um indivíduo com TID, percebo o comportamento das pessoas. Entretanto, eu não sei como é ser uma pessoa típica, assim como ela não sabe como é ter TID. As pessoas com TID talvez precisem agir e pensar diferente, mas eu não acho que seja impossível superar os obstáculos. Algumas idéias são a dramatização, a simplificação, determinar prioridades e estabelecer rotinas. Paciência e empatia são extremamente importantes para lidar com estas pessoas. A maior parte do material apresentado aqui não é fato científico, mas sim hipóteses baseadas na minha vida com o distúrbio. A minha intenção é dar às pessoas uma idéia do que é ter TID e, assim, proporcionar alguma ajuda.


ninja autista


Chocolate (Thai)


Zin (Ammara Siripong) é uma integrante da máfia tailandesa que foi expulsa da organização após se envolver com um membro do alto escalão da Yakuza, Masashi (Hiroshi Abe). Ela engravida de Masashi e dá a luz a Zen (Yanin “Jeeja” Vismitananda), uma menina que nasceu com autismo, mas com uma incrível habilidade de aprender a lutar apenas com sua memória fotográfica.


Beethoven Asperger


O Segredo de Beethoven (Copying Beethoven)



Anna Holtz (Diane Kruger) é uma jovem de 23 anos que sonha em se tornar uma compositora. Como estudante do Conservatório de Música, ela é indicada para um cobiçado cargo em uma editora musical. Devido a uma série de eventos ocasionais ela é designada para trabalhar juntamente a Ludwig van Beethoven (Ed Harris), o mais celebrado artista vivo da época. Inicialmente descrente, Beethoven faz a Anna um desafio de improvisação, no qual ela demonstra sua sensibilidade musical. Beethoven a aceita como escriba, dando início a um forte relacionamento entre os dois.



domingo, 9 de agosto de 2009

Attwood e Gradin


Tony Attwood entrevista Temple Gradin

Tradução de Mônica Accioly




A autobiografia de Temple Grandin’s, Emergence: Labeled Autistic e seu livro subsequente, Thinking in Pictures, juntos contém mais informações e insights sobre o autismo do que qualquer livro que eu tenha lido. A primeira vez em que a ouvi falar, pude imediatamente perceber sua maneira direta de ser. Toda a audiência foi cativada por seu conhecimento.Fiquei feliz ao ser convidadpo para entrevistar Temple, já que me proporcionou uma oportunidade de pedir seu conselho sobre tantas questões. Ela é uma pessoa extremamente afetuosa e a entrevista em São Francisco reuniu uma audiência de mais de 300 pessoas. Ao final, o aplauso foi longo e entusiasmado. Temple é minha heroína. Ela tem o meu voto como a pessoa que proorcionou o maior avanço em nossa compreensão sobre o autismo, neste século. (Dr. Tony Attwood)

Tony: Temple, você foi diagnosticada como autista aos quinze anos de idade. Como os seus pais contaram a você e como você se sentiu com esta notícia?

Temple: Bem, eles nunca me explicaram muito bem. Eu meio que descobri através de minha tia. Você tem que lembrar que eu tenho 53 anos e aquela era uma era freudiana, uma época muito diferente. Na verdade, eu fiquei aliviada quando descobri que havia algo de errado comigo. Pude entender porque eu não me entrosava com o pessoal da escola e porque eu não entendia algumas coisas que os adolescentes faziam – como minha colega de quarto que gritava quando via os Beatles num show de televisão. Eu pensava, é...Ringo é bonito mas eu não rolaria no chão por ele...

Tony: Então, atualmente, se você precisasse explicar para um jovem de 14 ou 15 anos : você tem autismo ou Síndrome de Asperger, como você diria?

Temple: Eu acho que eu diria para ele ler o meu livro ou o seu... Bem, eu provavelmente explicaria de maneira técnica, que é um atraso no desenvolvimento do cérebro que interfere com a interação social. Eu sou basicamente uma pessoa técnica – este é o tipo de pessoa que eu sou. Eu quero consertar as coisas. Com a maioria das coisas que eu faço, eu tenho a visão do engenheiro. Minhas emoções são simples. Eu tenho satisfação ao realizar um bom trabalho. Eu tenho satisfação quando um pai chega e me diz ”li seu livro e ele realmente ajudou meu filho na escola”. Eu tenho satisfação como o que eu faço.


Tony: Parece que quando você era muito peqena e muito autista, você gostava de alguns comportamentos autísticos. Quais eram eles?

Temple: Uma das coisas que eu fazia era deixar a areia escorrer entre os meus dedos , observando e estudando cada partícula como um cientista através de um microscópio. Quando eu fazia aquilo eu me desligava do mundo. Sabe, eu acho que é legal uma pessoa autista fazer isso às vezes porque é calmante. Mas se fizer todos os dias, não vai se desenvolver. As pesquisas de Lovaas mostraram que as crianças precisam estar conectadas com o mundo por 40 horas semanais. Eu não concordo que estas 40 horas precisem ser cumpridas sentada à mesa. Mas eu ficava conectada por 40 horas semanais. Eu tinha uma hora e meia de “Moça Educada”, quando eu precisava me comportar às refeições. A babá brincava comigo e com minha irmã uma série de brincadeiras e jogos infantis. Eu tinha atendimento fonoaudiológico todos os dias... estas coisas foram muito importantes para o meu desenvolvimento.

Tony: Ainda há pouco você usou a palavra “calmante”. Um dos problemas de algumas pessoas com Autismo ou Asperger é controlar seu humor. Como você controla o seu?

Temple: Quando eu era criança, se eu tivesse uma “crise de birra” na escola, minha mãe apenas dizia: “Você não vai assistir TV esta noite.” Eu freqüentava uma escola regular – 12 crianças na turma. Havia uma parceria entre escola e casa. Eu sabia que não podia jogar minha mãe contra meus professore ou vice-versa. Para mim, bastava saber que se eu tivesse uma crise , não assistiria meu programa favorito naquela noite. Quando eu estava no ginásio e as crianças implicavam comigo, eu entrei em brigas sérias. E fui expulsa da escola - não foi nada agradável. Mais tarde, quando entrei em brigas no colégio interno, eles cortaram a equitação. E como eu queria andar a cavalo nunca mais briguei. Foi simples assim.

Tony: Mas, cá entre nós, com quem você brigava? Você ganhava?

Temple: Bom... eu geralmente ganhava...

Tony: Você lutava com meninos ou meninas?

Temple: Tanto faz – quem implicasse comigo.

Tony: Então você batia nos meninos...

Temple: Ah, eu me lembro uma vez que dei um soco mum menino na lanchonete... Quando a briga acabava, eu chorava. Era a minha maneira de aliviar a tensão. É o que acontece agora, eu só choro, para prevenir as brigas. Eu também evito situações onde as pessoas começam a se irritar. Eu me afasto.

Tony: Eu gostaria de fazer uma pergunta técnica. Se você tivesse $10 milhões para pesquisa , você apoiaria pesquisas em andamento ou investiria em uma nova área?

Temple: Uma das áreas onde eu gastaria este dinheiro seria para tentar descobrir o que causa os problemas sensoriais. Eu sei que não é o déficit central do autismo, mas é algo que dificulta muito o funcionamento das pessoas com autismo.Uma outra coisa ruim, especialmente para as pessoas de alto funcionamento, é que quanto mais velhos, mais ansiosos. Mesmo tomando Prozac ou outra coisa, são tão ansiosos que é muito difícil “funcionar”. Gostaria que houvesse uma outra maneira de controlar isso que não fosse dopá-los completamente. Então levantaríamos questões como, deveríamos prevenir o autismo? Fico preocupada com isso porque se eliminássemos totalmente os gens que causam o autismo, estaríamos eliminando muitas pessoas talentosas, como Einstein. Eu acho que a vida é um contínuo – do normal para o anormal. Afinal, as pessoas realmente sociais não são as mesmas que desenvolvem os computadores, ou as plantas de instalações elétricas, ou constroem enormes hotéis, como este. As pessoas sociais se ocupam interagindo.

Tony: Então você não usaria a verba para acabar com a Síndrome de Asperger. Você não a vê como uma tragédia?

Temple: Bem, seria bom acabar com o que causa a deficiência severa, se houvesse uma maneira de preservar alguns traços genéticos. Mas o problema é que existem uma porção de genes diferentes interagindo. Se você recebe poucos traços, é bom, mas se são muitos, é ruim. Parece que depende do funcionamento genético. Aprendi trabalhando com animais que quando os criadores selecionam um determinado traço, outros traços ruins vêm junto. Por exemplo: na avicultura, selecionaram engorda rápida e muita carne, mas tiveram problemas porque o esqueleto não era forte o suficiente. Então criaram um esqueleto forte. E tiveram uma grande e desagradável surpresa, com que não contavam : acabaram com galos que atacavam e matavam as galinhas. Porque as pernas mais fortes acabaram com o comportamento normal do galo durante a corte. Quem poderia prever este problema ? É assim que a genética funciona.

Tony: Temple, uma das suas características é que você faz as pessoas rirem. Acho que às vezes não é a sua intenção, mas você tem esse dom. O que te faz rir? Como é o seu senso de humor?

Temple: Bem , prá começar, meu senso de humor baseia-se no visual. Quando eu estava te falando das galinhas, eu via imagens. Uma vez eu estava no departamento de conferência na universidade e havia fotos dos diretores antigos, em molduras de madeiras, pesadas e grossas. Olhei para elas e pensei: “Oh, galos emoldurados!”Numa outra reunião na faculdade, quando eu olhei para elas tive vontade de dar uma gargalhada. Isto é humor visual.

Tony: Isto explica porque ás vezes você cai na gargalhada e as outras pessoas não fazem a menor idéia do que está acontecendo...

Temple: É isso mesmo, eu estou vendo uma imagem mental de algo que é engraçado...

Tony: Sobre a sua família: sua mãe foi muito importante na sua vida. Que tipo de pessoa ela era? O que ela fez, pessoalmente, que te ajudou?

Temple: Para começar, ela não me internou. É preciso lembrar que isto foi há 50 anos e todos os profissionais recomendaram que eu fosse internada. Minha mãe me levou a um neurologista muito bom que recomendou fonoaudiologia e jardim de infância. Isto foi um golpe de sorte. Era um Jardim na casa de duas professoras, que sabiam como trabalhar com crianças. Eram seis crianças e nem todas eram autistas. Minha mãe também contratou uma babá, quando eu tinha três anos, que tinha experiência com crianças autistas. Eu tenho a impressão que ela mesma talvez fosse Asperger porque em seu quarto havia um banco de automóvel, retirado de um jeep velho – era sua cadeira predileta...

Tony: De que outra maneira a pessoa que a sua mãe era te ajudou?

Temple: Bem, ela trabalhava muito comigo. Encorajava meu interesse por artes, desenhando comigo. Ela havia trabalhado como jornalista, num documentário sobre pessoas com retardo mental e num outro programa para TV sobre crianças com distúrbios emocionais. Como jornalista ela havia visitado muitas escolas. Então quando eu me meti em confusão na nona série, por ter jogado um livro numa menina – eu fui expulsa e tivemos que encontrar outra escola . Ela encontrou um colégio interno que havia visitado como jornalista. Se ela não tivesse feito isso por mim, eu não sei o que teria acontecido. Quando eu cheguei lá, foi que eu encontrei pessoas como meu professor de Ciências e minha tia Ana, lá no rancho, que foi outra mentora importante para mim. Mas muitas pessoas me ajudaram pelo caminho.

Tony: E o seu pai? Descreva seu pai e seu avô.

Temple: Meu avô por parte de mãe inventou o piloto automático para aviões. Era muito tímido e quieto. Não era muito sociável. Do lado da família do meu pai , a gente encontra problemas de humor. Ele não achava que eu chegaria muitolonge. Também não era muito sociável.

Tony: Como você relaxa? Como se acalma no final do dia?

Temple: Antes de tomar medicação, eu costumava assistir Jornada nas Estrelas. Era fã. Uma coisa que eu gostava, especialmente nas séries antigas, eram os princípios morais. Fico preocupada hoje em dia com a violência. O problema com os filmes não é o número de armas , mas é que o herói não tem valores morais positivos. Quando eu era criança o Super Homem ou o Cavaleiro Solitário nunca faziam nada que fosse errado. Hoje, o herói faz coisas como jogar a mulher na água ou permite que ela leve um tiro. O herói deveria proteger.Atualmente você não tem valores bem definidos. E isto me preocupa porque minha moral é determinada pela lógica. E não sei quais seriam os meus valores se eu não tivesse assistido todos aqueles programas com princípios morais tão bem definidos.

Tony: Como você acha que estará a nossa compreensão do a utismo daqui a cem anos?

Temple: Ah, não sei... A engenharia genética provavelmente estará muito avançada e teremos um programa Windows 3000 “Faça uma pessoa”. Eles saberão ler o código DNA até lá, o que não se faz hoje. Os cientistas podem manipular o DNA – tirar ou por – mas não podem ler as cadeias. Daqui a cem anos eles farão isto. E eu acredito que ao menos os casos severos de autismo desaparecerão porque seremos capazes de manipular totalmente o DNA.

Tony: Atualmente existem algumas autobiografias de pessoas com Autismo ou Sídrome de Asperger. Quais são os seus heróis no campo do Autismo ou Síndrome de Asperger, pessoas que tem estes diagnosticos?

Temple: Eu admiro as pessoas que alcançam sucesso. Há uma senhora chamada Sara Miller que programa computadores industriais. Hoje há outra senhora aqui, muito bem vestida, que conduz seu próprio negócio de jóias, e me disse ter Asperger. Pessoas assim são meus heróis. Alguém que se supera e vai lá e realiza coisas.

Tony: E quanto às pessoas famosas da história, quem você diria ter Autismo ou Síndrome de Asperger?

Temple: Penso que Einstein tinha uma série de traços autísticos. Ele não falou até os três anos de idade – eu escrevi todo um capítulo sobre ele no meu último livro. Acho que Thomas Jefferson também tinha uns traços Asperger. Bill Gates tem uma memória fantástica. Li um artigo em que o autor cita que em criança ele memorizou todo o Torah. É um contínuo. Não há uma linha divisória entre o fanático por computador e , digamos, uma pessoa asperger. Eles se misturam. Por isto, se você acabar com os gens que causam o autismo, talvez haja um alto preço a ser pago. Anos atrás, um cientista em Massachusetts disse que se você acabasse com todos os gens que causam os distúrbios sobrariam apenas os burocratas ressequidos!

Tony abriu a entrevista para a audiência Uma das melhores:Como você percebeu que tinha o controle de sua vida?

Temple: Eu não era uma boa aluna na época do ginásio. Eu ficava com a cabeça no mundo da lua. Por pensar visualmente, precisei usar portas como um simbolismo – uma porta material que eu atravessava – simbolizando a minha passagem para a próxima fase da minha vida. Quando você pensa visualmente e não possui muitas experiências anteriores no disco rígido, você precisa ter algo para usar como mapa visual. Meu professor de Ciências conseguiu me motivar em diferentes projetos e eu percebi que se quisesse entrar na faculadde e me tornar uma cientista teria que estudar. Bem, um dia eu atravessei essa porta e disse “ OK, eu vou tentar prestar atenção na aula de Francês.”Mas houve um momento em que eu percebi a necessidade de fazer algo sobre o meu comportamento. E vivi situações que não foram nada fáceis. Alguns mentores me forçaram - e isto nem sempre foi agradável – mas eles me forçaram a perceber que eu precisava mudar o meu comportamento. Eu não podia continuar a ser uma inútil. Eu precisava mudar aquilo. Acho que li num dos primeiros artigos sobre o autismo, de Kanner, que a pessoa autista que finalmente alcança o sucesso, percebe que precisa trabalhar ativamente o seu comportamento. Não adianta ficar sentado reclamando das coisas. É preciso tentar mudar as coisas. Bons mentores podem te ajudar a fazer isso.


Temple escreveu dois livros sobre autismo: Emergence: Labeled Autistic and Thinking in Pictures. Ela é conhecida mundialmente por suas conferências sobre os transtornos do espectro autista.


Tony Attwood é psicólogo clínico, na Austrália, especializado na Síndrome de Asperger e se tornou um dos maiores especialistas do assunto. Freqüentemente realiza palestras nos Estados Unidos e é o autor de Asperger’s Syndrome: A Guide for Parents and Professionals. Todos os três livros estão disponíveis em Future Horizons. http://www.onramp.net/autism/


Este artigo foi publicado na edição de Janeiro-Fevereiro de 2000 do Autism Asperger’s Digest publicação de Future Horizons. Para mais informações: http://www.autismdigest.com/

Esta entrevista foi gravada em 9 de dezembro de 1999, num seminário em São Francisco, California.